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Mr. Nomad · White Metal · Christian Metal

WHITE METAL.
ISSO É MÚSICA CRISTÃ?

Do hard rock de arena ao death metal: a história do metal cristão que consegue levar você de Bon Jovi a uma aparente reunião de Cannibal Corpse, Immortal e Dimmu Borgir sem trocar de assunto.

Mortification, banda australiana de metal cristão extremo
Mortification — quando alguém esqueceu de avisar ao death metal que ele deveria parecer comportado.

Existe uma maneira bastante simples de começar uma matéria sobre white metal. Explicar o termo. Falar das origens. Citar algumas bandas. Organizar tudo cronologicamente.

Não faremos isso.

Antes, coloque os fones. Aumente um pouco o volume. E aperte o play.

Mortification · Scrolls of the Megilloth · Live Planetarium
Sim. Isso é metal cristão. Pode recolher a sobrancelha do teto. Agora podemos começar.

PRIMEIRO: “WHITE METAL” NÃO É UM SOM

Essa talvez seja a descoberta mais importante desta história.

White metal não funciona como thrash metal, doom metal ou death metal, termos que dizem bastante sobre características musicais. O rótulo ficou historicamente associado a bandas de metal com letras, identidade ou temas cristãos.

O problema é tentar colocar todas elas dentro da mesma gaveta musical.

A gaveta explode.

Porque dentro dela encontramos hard rock, heavy metal tradicional, doom, thrash, death metal, technical death metal, progressive metal e outras vertentes. A fé pode aproximar as letras. Os amplificadores fazem o que bem entenderem.

MORTIFICATION

O momento em que alguém esqueceu de avisar ao death metal que ele deveria parecer comportado

Mortification
Mortification.

O Mortification nasceu na Austrália no começo dos anos 1990 e tornou-se um dos nomes fundamentais do metal cristão extremo. Scrolls of the Megilloth, lançado em 1992, é exatamente a razão pela qual começamos nossa viagem por aqui.

Formação de Scrolls of the Megilloth

Steve Rowe — vocal principal e baixo.

Michael Carlisle — guitarras e backing vocals.

Jason Sherlock — bateria e backing vocals. O músico também aparece creditado como Jayson Sherlock em materiais de arte e design do álbum.

Não existe um sujeito separado para cantar. Steve Rowe está urrando e tocando baixo.

O resultado é death metal brutal, riffs serrilhados, bateria agressiva e uma estética sonora que, apresentada sem contexto, dificilmente produziria como primeira hipótese: “Cristianismo”.

E justamente aí mora a graça. O conteúdo espiritual não obrigou esses músicos a abandonar a linguagem musical extrema. Eles simplesmente utilizaram essa linguagem para transmitir outra mensagem.

TROUBLE

Black Sabbath entrou numa igreja abandonada e ninguém achou prudente interromper

Trouble
Trouble — peso, atmosfera e referências bíblicas.

Agora precisamos voltar para Chicago. Trouble é essencial para entender a história do white metal e do doom cristão. Seu álbum de estreia, lançado em 1984 e posteriormente conhecido como Psalm 9, colocava riffs pesados e lentos, fortemente ligados à tradição de Black Sabbath, dentro de uma identidade própria.

Formação de Psalm 9

Eric Wagner — vocal principal.

Rick Wartell — guitarra.

Bruce Franklin — guitarra.

Sean McAllister — baixo.

Jeff Olson — bateria.

Trouble · Psalm 9 · Live in Stockholm

Não estamos mais no death metal do Mortification. Mas também não fomos exatamente para um piquenique.

O Trouble trabalha com peso, atmosfera e riffs enormes. É uma combinação historicamente interessante porque desmonta outra associação automática: som sombrio não significa necessariamente mensagem anticristã.

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E ENTÃO CHEGARAM QUATRO HOMENS DE AMARELO E PRETO

Aqui nossa viagem fica maravilhosa. Porque depois de Mortification e Trouble... entra o Stryper.

E a sensação é aproximadamente a de sair de uma catacumba, abrir uma porta e descobrir que Bon Jovi está fazendo passagem de som do outro lado.

O Stryper é um dos nomes centrais para entender como o Christian metal atravessou sua própria bolha e alcançou o grande público.

Stryper
Stryper — amarelo, preto, harmonias e refrões de arena.
Formação clássica

Michael Sweet — vocal principal e guitarra.

Robert Sweet — bateria.

Oz Fox — guitarra e vocais.

Tim Gaines — baixo e vocais.

Na formação atual, a própria banda apresenta Michael Sweet em lead vocals/lead guitar, Robert Sweet em bateria e o deliciosamente batizado “visual timekeeping”, Oz Fox em lead guitar/vocals e Perry Richardson em bass/vocals.

Stryper — To Hell With The Devil

Live in Korea · 1989

Agora compare isso com o Mortification do começo. É A MESMA MATÉRIA.

To Hell with the Devil, de 1986, tornou-se o grande marco comercial do grupo e ajudou a colocar o Christian hard rock diante de uma audiência muito maior.

Stryper — Honestly

Live · Upscaled to 4K UHD

Olá, Bryan Adams. Pode entrar. Tem café.

É A MESMA BANDA.

Honestly mostra justamente a capacidade do Stryper de trabalhar com a power ballad característica daquela época. E isso explica por que reduzir white metal a uma sonoridade é praticamente inútil.

WHITECROSS

Agora que você se recuperou, vamos continuar nos anos 80

O Whitecross surgiu em Chicago em 1986 e ocupou a ala mais hard rock/heavy metal dessa história. Dois nomes definiram grande parte de sua identidade clássica: Scott Wenzel no vocal e Rex Carroll na guitarra.

Formação de In the Kingdom

Scott Wenzel — vocal.

Rex Carroll — guitarra.

Butch Dillon — baixo.

Mike Feighan — bateria e vocais.

Whitecross · In the Kingdom · Live from Guatemala

Agora você provavelmente está tranquilo. Já compreendeu tudo. Christian metal pode ser pesado, mas também pode ser melódico. Terminamos.

Não.

DELIVERANCE

O thrash resolveu entrar pela porta da frente

Deliverance
Deliverance — thrash/speed metal dentro da cena cristã.

Se Mortification destrói a ideia de que metal cristão precisa ser leve, o Deliverance elimina qualquer dúvida pelo caminho do thrash. O álbum Weapons of Our Warfare é uma das referências mais fortes desse lado da cena.

Formação de Weapons of Our Warfare

Jimmy P. Brown II — vocal e guitarra; também co-produtor do álbum.

George Ochoa — guitarra; também produtor.

Brian Khairullah — baixo.

Chris Hyde — bateria.

É o momento em que alguém pergunta “mas até onde vai essa história?” e o thrash responde antes de você terminar a frase.

EXTOL

A Noruega entrou na conversa. Isso raramente termina em volume baixo.

Extol
Extol — metal extremo, técnica e progressivo.

O Extol nasceu em Bekkestua/Bærum, Noruega, em 1993. Musicalmente estamos novamente entrando em território extremo.

Formação de Undeceived

Peter Espevoll — vocal principal.

Christer Espevoll — guitarra e backing vocals.

Ole Børud — guitarra, backing vocals e vocais limpos.

Tor Magne Glidje — baixo.

David Husvik — bateria e backing vocals.

E aqui aparece um sujeito que merece atenção especial.

Ole Børud

O homem aparentemente olhou para a expressão “escolha um instrumento” e respondeu: “Não.”

Além do trabalho de guitarra e voz no Extol, Børud também é conhecido por atuar como multi-instrumentista, compositor e produtor. No próprio Undeceived, ele aparece ainda em composição, produção e mixagem. O disco também traz participações de cello, violino e metais.

Metal extremo. Guitarra. Voz. Produção. Cordas. Metais. Meu amigo, se alguém entregar uma tuba provavelmente teremos resposta até sexta-feira.

Extol · Undeceived · Live at Furnace Fest 2024
E pronto. Voltamos para o apocalipse.

SEIS BANDAS. UM MONTE DE RESPOSTAS DIFERENTES.

Como soa o white metal?

Depende.

Mortification pode lhe entregar death metal. Trouble pode afundar a sala em doom. Stryper pode construir um refrão para vinte mil pessoas cantarem juntas — e cinco minutos depois tocar uma power ballad. Whitecross atravessa hard rock e heavy metal melódico. Deliverance entra pelo thrash. Extol desmonta tudo novamente com death metal técnico e progressivo.

Portanto, “white metal” funciona melhor quando entendido dentro de seu contexto histórico e temático, enquanto “Christian metal” serve como um guarda-chuva mais claro para bandas de diferentes vertentes que trabalham com identidade, letras ou temas cristãos.

MAS ESPERE: METAL E CRISTIANISMO NÃO ERAM INIMIGOS?

Essa é justamente uma das razões pelas quais essa história é tão interessante.

Heavy metal sempre utilizou imagens de morte, religião, guerra, mitologia, espiritualidade, medo, política, literatura e conflito humano.

O surgimento do metal cristão colocou músicos de fé cristã dentro de uma cultura que frequentemente utilizava símbolos religiosos de maneiras provocativas — e, ao mesmo tempo, colocou heavy metal dentro de ambientes cristãos que muitas vezes desconfiavam profundamente dele.

Alguns metaleiros olhavam para os cristãos e perguntavam: “O que vocês estão fazendo aqui?”

Alguns cristãos olhavam para os metaleiros e perguntavam: “O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI?”

E os músicos responderam da maneira mais eficiente possível:

aumentando o amplificador.

A EXPERIÊNCIA PASSPORT

Começamos com Mortification e por alguns minutos parecia que Cannibal Corpse havia marcado ensaio com Gorgoroth.

Trouble trouxe Black Sabbath para uma igreja abandonada.

Stryper abriu a porta e aparentemente Bon Jovi estava esperando do lado de fora.

Honestly fez Bryan Adams procurar um isqueiro.

Whitecross confirmou que o hard rock ainda estava vivo.

Deliverance lembrou que o thrash também estava sentado à mesa.

E então fomos para a Noruega.

Extol entrou.

E alguém desligou Bryan Adams imediatamente.

SEIS PORTAS DE ENTRADA

Mortification — Scrolls of the Megilloth
Para descobrir até onde o metal cristão consegue chegar em brutalidade.

Trouble — Psalm 9
Para entender a ligação histórica entre doom metal e white metal.

Stryper — To Hell with the Devil
Para conhecer o momento em que Christian metal atravessou a fronteira do grande público.

Whitecross — In the Kingdom
Para explorar sua face hard/heavy melódica.

Deliverance — Weapons of Our Warfare
Para entrar no lado thrash/speed dessa história.

Extol — Undeceived
Para descobrir o que acontece quando metal extremo, técnica, progressivo e experimentação entram na mesma sala.

ENTÃO... ISSO É MÚSICA CRISTÃ?

É.

Também é doom. Também é hard rock. Também é heavy metal. Também é thrash. Também é death metal. Também pode ser progressivo.

Às vezes brutal. Às vezes melódico. Às vezes tão acessível que poderia tocar numa arena dos anos 80.

E às vezes você dá play sem contexto e fica olhando para a tela pensando:

“TA POOOOORRA. QUANDO FOI QUE O BEHEMOTH ENTROU NESSA MATÉRIA?”

Não entrou.

Era o metal cristão o tempo inteiro.

MR. NOMAD'S FINAL NOTE

Talvez o erro esteja em perguntar se fé e peso podem ocupar a mesma música.

Depois de Mortification, Trouble, Stryper, Whitecross, Deliverance e Extol, a pergunta já perdeu a utilidade.

Eles ocuparam. Cada um à sua maneira.

E alguns fizeram isso com uma quantidade absolutamente irresponsável de distorção.

3... 2... 1... CLICK!

Fontes e referências

  • Stryper — biografia oficial.
  • Créditos de Scrolls of the Megilloth — Mortification.
  • Créditos de Psalm 9 — Trouble.
  • Créditos de Weapons of Our Warfare — Deliverance.
  • Créditos de Undeceived — Extol.
  • Vídeos incorporados via YouTube em modo de privacidade aprimorada.