
Três pessoas na plateia. Trinta anos depois, Sharon den Adel quer mudar tudo outra vez.
Within Temptation chegou aos 30 anos podendo simplesmente administrar o próprio legado. Sharon prefere outra coisa: olhar para trás por alguns minutos — e depois explodir a porta do próximo capítulo.
Sharon, trinta anos permitem começar uma conversa de muitos lugares.
Eu poderia começar pelos discos. Pelas turnês. Pelos festivais. Por Mother Earth. Pelas multidões.
Mas quero começar pelo número três.
Primeiro show do Within Temptation. Você sobe ao palco, olha para a sala e existem três pessoas.
Hoje isso é uma história maravilhosa. Naquela noite provavelmente não parecia tão maravilhosa assim.
O que passou pela sua cabeça?
“Onde está todo mundo?”
A motivação sempre foi fazer música, porque era aquilo que amávamos. Mesmo no começo, existia a sensação de que a banda poderia crescer. Nós acreditávamos muito no que estávamos fazendo.
Depois daquele primeiro show, as coisas começaram a mudar rapidamente. Os shows seguintes passaram a ficar cheios ou quase cheios, e veio aquela impressão de que aquilo de que nós gostávamos também podia encontrar outras pessoas.
“Onde está todo mundo?”
Guarda essa pergunta.
Eu vou devolvê-la para você no fim.
Não três mil. Não trinta mil. Três pessoas. Às vezes uma carreira gigantesca começa num número pequeno demais para parecer importante.
Quero voltar para a Holanda em que essa banda nasceu.
Hoje é fácil olhar retrospectivamente e enxergar “a cena”. Na época, vocês estavam dentro dela sem saber exatamente o tamanho que aquilo teria.
Você mesma cita Gorefest quando fala daquele período. Uma banda musicalmente muito diferente do Within Temptation, mas parte de um país em que alguma coisa estava acontecendo.
Quanto aquele ambiente ajudou?
Havia muita coisa acontecendo na Holanda. O death metal tinha nomes como Gorefest abrindo caminhos, mesmo que estilisticamente estivéssemos em lugares diferentes.
A cena florescia. Quando começamos, ainda eram poucas as bandas próximas de nós com uma cantora à frente. Depois apareceram muitas outras, inclusive na Holanda.
E isso é uma coisa bonita: alguém vê uma banda do próprio país e pensa “talvez a gente também consiga fazer isso”. As pessoas começam a se inspirar mutuamente.
Isso é interessante porque a história costuma ser contada de trás para frente.
Quando uma cena já existe, parece inevitável que ela existisse.
Mas alguém precisou subir num palco quando ainda não havia mapa.
E, no caso de vocês, aparentemente havia três testemunhas.
Within Temptation nunca passou três décadas tentando gravar o mesmo disco outra vez.
Se existe uma ideia que atravessa quase tudo o que Sharon diz sobre a banda, é movimento.
O primeiro Within Temptation não soa como o de Mother Earth. Mother Earth não é The Silent Force. The Unforgiving abriu outra porta. Hydra mexeu novamente na combinação. Resist buscou uma produção mais moderna. Bleed Out levou a banda a outro ponto.
E isso não aconteceu por acidente.
Enter
O começo ainda carregava muito mais peso de doom e gothic metal, mostrando uma banda que ainda estava definindo a própria linguagem.
Mother Earth
A expansão. Elementos celtas, atmosfera, melodias enormes e uma identidade que empurrou a banda para outro nível.
The Silent Force
Escala cinematográfica maior, arranjos amplos e uma banda já confortável em ocupar palcos grandes.
The Unforgiving
Influências dos anos 80, conceito visual e uma mudança assumida de direção em vez de uma continuação automática.
Hydra
Colaborações e cruzamentos que ampliaram ainda mais o vocabulário do Within Temptation.
Resist
Produção moderna, novas referências rítmicas e uso mais seletivo da orquestração tradicional.
Bleed Out
Uma banda pesada, atual e cada vez menos preocupada em caber numa definição confortável de metal sinfônico.
?
Sharon já avisou: a próxima mudança será grande outra vez.
Você usou uma palavra perigosa quando falou sobre tentar coisas novas.
Arrogância.
Disse que talvez seja necessário um pouco dela.
Eu quero parar exatamente aí.
Porque existe uma diferença gigantesca entre pensar “somos melhores que todo mundo” e pensar “acredito tanto nisso que vou fazer mesmo sem saber se vão aceitar”.
Qual dessas duas coisas você estava chamando de arrogância?
Talvez seja uma forma de confiança necessária para experimentar.
A nossa evolução aconteceu pouco a pouco porque sempre fomos atrás de novas influências e tentamos incorporá-las àquilo que já fazíamos.
Quando você tenta algo novo, precisa acreditar que aquilo pode funcionar. Caso contrário, provavelmente nunca sai do lugar conhecido.
Então talvez eu discorde apenas do nome.
Depois de trinta anos, isso me parece menos arrogância e mais recusa em administrar o próprio museu.
Sharon. Espera. Quero fazer uma coisa.
Você começou esta conversa me contando sobre três pessoas.
Então quero que quem está lendo veja onde aquela história foi parar.
Não vou explicar.
Não vou transformar isso em legenda sentimental.
Aumenta.
Certo.
Agora podemos continuar.
Onde está todo mundo, Sharon?
Acho que encontramos.
Mas existe outra parte dessa história que eu não quero romantizar.
Porque mudança nem sempre vem de um lugar confortável.
Depois de Hydra, você chegou a um ponto em que não sabia direito se queria continuar com o Within Temptation. Houve bloqueio criativo. Surgiu o My Indigo. E, em vez de esse projeto significar o fim, ele acabou ajudando você a reencontrar um caminho para a banda.
O que estava acontecendo?
Houve um período em que escrever para o Within Temptation simplesmente não estava funcionando. Eu precisava descobrir o que queria fazer e de que maneira queria continuar fazendo música.
My Indigo nasceu desse espaço mais pessoal.
E, durante esse processo, começaram a surgir novamente ideias para o Within Temptation. Também apareceram influências que antes não estavam tão presentes na nossa música.
Isso acabou ajudando a encontrar uma direção nova para Resist.
Eu gosto dessa parte porque ela destrói uma mentira muito comum sobre carreiras longas.
A ideia de que, quando alguém “chega lá”, nunca mais duvida.
Às vezes chegar lá só oferece lugares maiores para se perder.
Agora eu vou implicar com você.
Trinta anos.
Vocês conseguiram.
Within Temptation tem público, catálogo, identidade, músicas que atravessaram gerações e uma posição que permitiria fazer exatamente aquilo que tantas bandas veteranas fazem.
Encontrar uma fórmula.
Proteger a fórmula.
Gravar pequenas variações da fórmula.
Tocar os clássicos.
Receber os aplausos.
Ir para casa.
Mas você está dizendo que o próximo trabalho vai mudar o som outra vez.
Não um pouco.
Muito.
Por quê?
Porque o fogo ainda está ali.
Estamos escrevendo novamente e gostando muito do processo. O próximo som precisa ser algo novo para a banda, e isso exige adaptação de todos nós.
Ainda estamos construindo esse material, então não quero explicar exatamente onde ele vai terminar.
Mas a mudança será grande.
Essa resposta combina demais com a história que você acabou de me contar.
Porque existe uma maneira muito confortável de matar uma banda depois de trinta anos:
continuar lançando o mesmo disco até ninguém perceber que existe um disco novo.
Within Temptation escolheu um problema mais interessante.
Mudar significa correr o risco de irritar alguém que queria Mother Earth II.
Mas Mother Earth também só existiu porque vocês não decidiram repetir exatamente aquilo que já tinham feito.
Última pergunta.
Na verdade...
não.
Não tenho outra pergunta.
Só quero devolver uma para você.
Aquela primeira.
A garota sobe ao palco.
Três pessoas.
Olha em volta.
“Onde está todo mundo?”
Sharon...
eles estavam vindo.
Alguns descobriram vocês em Enter.
Outros chegaram em Mother Earth.
Alguns entraram pela porta de The Silent Force.
Outros só apareceram em The Unforgiving, Hydra, Resist ou Bleed Out.
E provavelmente existe alguém ouvindo Within Temptation pela primeira vez enquanto lê esta conversa.
Trinta anos depois, acho que finalmente podemos responder.
Estão aqui.
E você, aparentemente, resolveu mudar tudo novamente antes que eles consigam se acomodar.
Eu esperava exatamente isso.
3... 2... 1... CLICK!
Trinta anos não fizeram o Within Temptation chegar a um destino. Deram à banda mais lugares para ir.
Talvez seja isso que torna essa história mais interessante que um aniversário.
Não são apenas trinta anos de duração.
São trinta anos de mudanças suficientes para que a banda de 1997 e a de 2026 possam ser reconhecidas como parentes — sem parecer a mesma fotografia repetida.
Existe gente que chama isso de falta de identidade.
Eu chamaria de uma identidade forte o bastante para sobreviver à mudança.
E agora Sharon está avisando que vem outra.
Ótimo.
Depois de três décadas, o pior presente de aniversário seria finalmente ficar previsível.
Esta matéria foi construída a partir de declarações recentes de Sharon den Adel, entrevistas de diferentes períodos da carreira e pesquisa editorial sobre os 30 anos do Within Temptation. As falas atribuídas à artista foram preservadas em seu sentido original e contextualizadas pelo Mr. Nomad com seus direitos.
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