Ritchie Blackmore voltou ao Deep Purple. Bastaram quatro notas para apagar 33 anos.
Aos 81 anos, o homem por trás de um dos riffs mais reconhecíveis da história voltou ao palco com Ian Gillan, Roger Glover e Ian Paice. Não foi uma reunião. Talvez por isso tenha sido tão especial.
Existem riffs que você não precisa apresentar.
Você pode nunca ter comprado um disco do Deep Purple. Pode não saber explicar Mark I, Mark II, Mark III ou qualquer outra encarnação da banda. Pode até não saber quem é Ritchie Blackmore.
Mas coloque uma guitarra na mão de alguém que acabou de aprender os primeiros desenhos do instrumento.
Existe uma boa chance de você saber o que vem a seguir.
Smoke on the Water.
O riff atravessou gerações, lojas de instrumentos, quartos de adolescentes, estádios, bares, escolas de música e uma quantidade indecente de guitarras desafinadas.
E durante 33 anos, o homem que ajudou a transformá-lo em idioma universal do rock não o tocou novamente ao lado do Deep Purple.
Até 12 de agosto de 2026.
3... 2... 1... CLICK!
Antes do reencontro, houve uma história grande demais para caber num riff.
Ritchie Blackmore estava lá quando o Deep Purple começou, em 1968.
Não chegou quando o palco já estava montado. Não entrou depois que o nome ganhou peso. Ele foi um dos fundadores da banda e ajudou a construir a linguagem de guitarra que se tornaria parte fundamental do hard rock.
Depois vieram Ian Gillan e Roger Glover.
Com Ian Paice, Jon Lord, Blackmore, Gillan e Glover, nasceu a formação que o mundo aprenderia a chamar de Mark II.
E aquilo virou uma máquina.
Deep Purple in Rock
A banda deixa de pedir licença e encontra uma linguagem própria de peso, improvisação e volume.
Fireball
O som continua se expandindo sem abandonar a tensão entre técnica, força e canção.
Machine Head
Aqui mora Smoke on the Water — e um dos capítulos mais reconhecíveis da história do rock.
Made in Japan
Aquilo que já era enorme em estúdio ganha outra dimensão quando a banda é solta no palco.
Helsinki
Blackmore deixa o Deep Purple novamente. Desta vez, o afastamento duraria mais de três décadas.
Wantagh
Uma música. Um riff. E 33 anos comprimidos em poucos minutos.
Blackmore tocava guitarra como se estivesse permanentemente discutindo com ela. Algumas discussões, porém, saíram do instrumento.
A química musical era extraordinária. A convivência, nem sempre.
A relação entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore nunca precisou de invenção jornalística para parecer complicada.
Os dois fizeram parte de algumas das páginas mais importantes do Deep Purple e também carregaram tensões que atravessaram décadas.
A banda passou por mudanças de formação, separações e retornos. Gillan saiu. Blackmore saiu. A formação clássica voltou. As diferenças voltaram junto.
Até chegarmos a novembro de 1993.
Helsinki, Finlândia.
Blackmore deixou o Deep Purple.
E dessa vez os anos começaram a empilhar silêncio sobre silêncio.
1993 virou 2003.
Depois 2013.
Depois 2023.
Enquanto isso, o Deep Purple continuou.
Steve Morse construiu um capítulo enorme na guitarra da banda. Quando precisou sair por razões pessoais, Simon McBride assumiu e trouxe sua própria linguagem para a fase seguinte.
Nos teclados, Don Airey passou a carregar uma função que, durante décadas, teve o peso e a assinatura de Jon Lord.
Esse ponto importa.
Blackmore voltar por uma música não apaga quem manteve o Deep Purple vivo durante sua ausência.
Talvez seja justamente o contrário.
Ele pôde voltar sem precisar ocupar novamente o lugar de ninguém.
Então um senhor de 81 anos resolveu perguntar: “E se eu tocar uma?”
Antes do show em Wantagh, Blackmore revelou que havia procurado Ian Gillan.
Não com uma proposta de turnê.
Não com um projeto chamado “Deep Purple Reunion World Tour”.
Não com uma coletiva de imprensa pronta.
A ideia era muito menor.
E por isso talvez muito mais bonita.
Uma música no bis.
Pelos velhos tempos.
Sem pressão.
Blackmore deixou claro que não queria se intrometer.
Gillan levou a ideia para a banda.
Veio o sinal positivo.
E então chegou 12 de agosto de 2026, no Jones Beach Theater, em Wantagh, Nova York.
O Deep Purple já havia atravessado aproximadamente cem minutos de show quando Ritchie Blackmore entrou no palco.
Não escolheram uma obscuridade para especialistas em bootleg.
Não precisava.
Smoke on the Water.
O riff dele.
Novamente dentro do Deep Purple.
Não era 1972. Não precisava ser. Era exatamente 2026 — e esse era o ponto.
Uma história antiga dentro de uma banda que continua andando.
Ritchie Blackmore
Fundador do Deep Purple. O retorno ao palco com a banda aconteceu após 33 anos de distância.
Ian Gillan
A voz de uma das eras fundamentais do Deep Purple e o homem que apresentou Blackmore novamente ao público.
Roger Glover
Parte da formação Mark II e uma das engrenagens centrais da identidade musical e produtiva do grupo.
Ian Paice
Único integrante presente desde a formação original, atravessando todas as eras do Deep Purple.
Don Airey
Responsável pelos teclados na formação atual, dando continuidade a uma função historicamente monumental dentro da banda.
Simon McBride
Guitarrista da formação atual. Entrou após a saída de Steve Morse e segue escrevendo o capítulo contemporâneo do Deep Purple.
“The great legend. The immortal... Ritchie Blackmore.”
A música terminou.
E talvez o momento mais importante tenha vindo depois do último acorde.
Ian Gillan contou ao público como aquela participação havia surgido.
Então apresentou o antigo companheiro.
The great legend. The immortal... Ritchie Blackmore.
Depois veio a frase simples:
“I'll see you in the bar.”
Não era necessário fingir que as décadas anteriores nunca aconteceram.
Não era necessário anunciar uma reconciliação cinematográfica.
Não era necessário prometer nada para amanhã.
Gillan reconheceu Blackmore.
Blackmore apareceu.
Eles tocaram.
Pronto.
Nos bastidores, Candice Night — parceira de Blackmore na vida e na música — publicou uma fotografia dos músicos reunidos.
Às vezes uma imagem resolve o resto.
Agora para de ler por alguns minutos.
Ritchie Blackmore novamente ao lado de Ian Gillan, Roger Glover e Ian Paice.
Com Don Airey e Simon McBride representando a história que continuou enquanto Blackmore esteve fora.
Não é reprodução perfeita de 1972.
Ainda bem.
É uma fotografia de 2026.
Smoke on the Water.
Ritchie Blackmore.
Deep Purple.
Aumenta.
A familiaridade às vezes esconde o tamanho de uma música.
Smoke on the Water foi tocada tantas vezes que existe o risco de esquecermos o que significa uma composição entrar desse jeito na cultura.
Retire o nome Deep Purple.
Retire Machine Head.
Retire 1972.
Deixe apenas o desenho do riff.
Seu cérebro completa o resto.
Isso é legado.
Não tendência.
Não algoritmo.
Não a quantidade de gente comentando uma música naquela semana.
Legado é quando algumas notas continuam funcionando depois que gerações inteiras de ouvintes chegaram e foram embora.
Blackmore criou várias dessas notas.
Algumas guerras simplesmente já ocuparam tempo demais.
Eu gosto dessa história justamente porque ela não termina com anúncio de reunião.
Espero até que ninguém tente transformar aquele momento em algo que ele não foi.
Um homem de 81 anos quis tocar novamente com pessoas com quem construiu parte da própria vida.
Perguntou.
Eles aceitaram.
Ele foi.
Tocaram o riff.
Depois de 33 anos, Ian Gillan olhou para o público e chamou Ritchie Blackmore de lenda.
Às vezes o rock não precisa de uma reconciliação cinematográfica.
Não precisa de comunicado.
Não precisa de lágrimas ensaiadas.
E não precisa fingir que tudo foi esquecido.
Às vezes basta envelhecer o suficiente para perceber que certas guerras já ocuparam tempo demais.
E então pegar novamente a guitarra.
Alguns músicos deixam uma banda.
Outros deixam um espaço com exatamente o formato deles.
Por alguns minutos, Ritchie Blackmore voltou a ocupar o seu.
3... 2... 1... CLICK!
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