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Arquivo histórico · Kate Bush · 1978

A história de “Wuthering Heights”, música de Kate Bush que se tornou clássico do Angra

Antes de atravessar o oceano e ganhar uma releitura inesquecível na voz de André Matos, a canção nasceu numa madrugada, diante de um piano, sob a luz da lua e inspirada por uma das histórias mais intensas da literatura inglesa.

Kate Bush em fotografia de época

“Wuthering Heights” foi o primeiro grande sucesso da cantora e compositora inglesa Kate Bush. Inspirada no romance homônimo de Emily Brontë — publicado no Brasil como “O Morro dos Ventos Uivantes” — a música entrou no álbum de estreia The Kick Inside, lançado em fevereiro de 1978.

Uma canção nascida da literatura

Publicado em 1847, o romance acompanha a relação trágica entre Heathcliff e Catherine, marcada por amor, orgulho, ausência, vingança e uma ligação emocional que atravessa a própria morte. Kate Bush transformou essa atmosfera numa narrativa cantada em primeira pessoa, como se Catherine retornasse para chamar Heathcliff.

Curiosamente, Kate não havia terminado o livro quando compôs a música. Ela conhecia a história por relatos de seu irmão, leu algumas passagens e encontrou na personagem Cathy uma forma de projetar sentimentos próprios de desejo, obsessão e distância.

“O nome Cathy ajudou e facilitou a projeção dos meus próprios sentimentos de desejo por alguém a ponto de odiá-la.” — Kate Bush

A madrugada em que tudo aconteceu

Kate contou que escreveu a canção em seu apartamento, sentada ao piano, numa noite de março, por volta da meia-noite. As cortinas estavam abertas e, sempre que levantava os olhos em busca de ideias, encontrava a lua diante da janela.

Segundo ela, o refrão surgiu com facilidade e tinha uma sensação circular. Uma versão mais complicada chegou a ser esboçada, mas Kate decidiu preservar a primeira forma, repetitiva e hipnótica, porque ela carregava exatamente a atmosfera que procurava.

“Eu olhava para a lua. As ideias surgiram com muita facilidade. Eu não conseguia sair do refrão.” — Kate Bush

Quando o Brasil entrou nessa história

Quinze anos depois do lançamento de The Kick Inside, “Wuthering Heights” encontrou uma nova vida no Brasil. O Angra incluiu uma releitura da música em seu álbum de estreia, Angels Cry, lançado em 1993.

A versão preservou a dramaticidade da composição original, mas a levou para outro território: guitarras, peso, arranjos de metal melódico e a interpretação extraordinária de André Matos. O alcance vocal do cantor transformou a faixa em um dos momentos mais marcantes do início da carreira da banda.

Da literatura ao metal brasileiro Emily Brontë → Kate Bush → Angra → André Matos

Uma história do século XIX atravessou o pop britânico dos anos 1970 e chegou ao heavy metal brasileiro dos anos 1990 sem perder sua intensidade emocional.

Quando uma música deixa de pertencer ao seu tempo

Poucas composições conseguem atravessar literatura, art rock, pop e heavy metal mantendo a mesma força. “Wuthering Heights” fez exatamente isso. Cada nova interpretação não apaga a anterior: acrescenta uma nova camada à viagem.

Da Inglaterra imaginada por Emily Brontë ao piano de Kate Bush, e daquele piano ao estúdio em que o Angra gravou Angels Cry, a música continua provando que grandes histórias não pertencem apenas a uma época. Elas encontram novos caminhos, novas vozes e novos destinos.

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