Há aniversários que servem para olhar fotografias antigas.
E há aniversários que pedem amplificadores.
POR MR. NOMAD · 12 DE AGOSTO DE 2026
Em 20 de novembro, o Hoobastank voltará a Los Angeles para uma apresentação especial no The Roxy Theatre, em Hollywood.
A proposta é simples e, para quem atravessou os anos 2000 com uma guitarra alta perto dos ouvidos, perigosamente eficiente:
Do começo ao fim.
Vinte e cinco anos depois.
O Audiovent se junta ao Hoobastank na celebração, colocando no mesmo palco duas referências daquela virada de século em que o rock alternativo parecia brotar de cada garagem, rádio, festival e programa da MTV.
Mas existe alguma coisa mais interessante acontecendo aqui do que simples nostalgia.
Porque o Hoobastank chega a esse aniversário enquanto experimenta exatamente aquilo que poucas bandas conseguem viver:
uma segunda geração descobrindo sua música.
ANTES DE “THE REASON”, HAVIA AGOURA HILLS
O Hoobastank nasceu em Agoura Hills, Califórnia, em 1994.
A história começa com dois jovens músicos:
Douglas “Doug” Robb e Daniel “Dan” Estrin.
Os dois se conheceram no ambiente escolar e acabaram cruzando caminhos em uma batalha de bandas.
Quando seus respectivos grupos deixaram de existir, resolveram tocar juntos.
Depois chegaram Markku Lappalainen, no baixo, e Chris Hesse, na bateria.
O primeiro show aconteceu praticamente em casa:
no quintal da família de Doug Robb.
E já havia outro nome daquela cena circulando por perto:
A Califórnia do final dos anos 1990 estava produzindo uma quantidade quase irresponsável de bandas interessadas em misturar peso, groove, melodia, alternative rock, metal, funk e qualquer outra coisa que coubesse dentro de um amplificador.
O Hoobastank nasceu nesse ambiente.
E havia uma particularidade que muita gente que conheceu a banda apenas depois de “The Reason” provavelmente nem imagina.
Sim. Havia saxofones.
A formação inicial do Hoobastank chegou a trabalhar com saxofonistas e com uma arquitetura musical muito diferente da imagem que a banda ganharia anos depois.
No álbum independente They Sure Don't Make Basketball Shorts Like They Used To, lançado antes do contrato com uma grande gravadora, aquela mistura ainda estava bastante presente.
Ou seja:
2001: A PORTA É ARROMBADA
Em 20 de novembro de 2001, o álbum Hoobastank chegou oficialmente aos Estados Unidos.
E com ele vieram músicas que ajudariam a estabelecer a identidade internacional do grupo.
“Crawling in the Dark”.
“Running Away”.
“Remember Me”.
“Pieces”.
Era uma banda mais nervosa.
Mais física.
Mais próxima da urgência do alternative rock e do post-grunge daquele período.
As guitarras de Dan Estrin frequentemente funcionavam como parte da própria seção rítmica.
Chris Hesse batia com uma precisão quase corporal.
Markku Lappalainen colocava o peso grave por baixo.
E Doug Robb já possuía aquilo que se tornaria uma de suas maiores armas:
uma voz que conseguia transformar tensão em melodia.
Veja Dan Estrin.
Veja Chris Hesse.
Escute a quantidade de pressão que existe na música.
Isso não é uma banda esperando pacientemente para escrever uma balada mundial.
É uma banda de rock tentando atravessar a parede.
QUATRO HOMENS. QUATRO FUNÇÕES.
A formação atual mantém três homens ligados diretamente à origem do grupo e um baixista que já atravessou mais de uma década e meia de história com eles.
Douglas “Doug” Robb — vocal principal e guitarra rítmica.
Daniel “Dan” Estrin — guitarra principal e backing vocals.
Chris Hesse — bateria e backing vocals.
Jesse Charland — baixo, teclados e backing vocals.
DOUG ROBB — A VOZ E O CENTRO EMOCIONAL
Douglas Robb não é simplesmente o sujeito que fica diante do microfone enquanto os outros três produzem o impacto.
Ele é o ponto em que aquele impacto encontra humanidade.
Robb também toca guitarra e, no começo de sua história musical, passou pelo baixo antes de assumir definitivamente a posição de vocalista.
Isso ajuda a explicar uma característica importante de sua maneira de cantar.
Doug raramente parece estar colocado sobre a música.
Ele parece estar dentro dela.
Quando a banda comprime, ele comprime.
Quando Estrin abre espaço, a voz cresce.
E quando a música pede vulnerabilidade...
bom.
Daqui a pouco chegaremos àquela música.
DAN ESTRIN — A ENGENHARIA DAS GUITARRAS
Daniel Estrin é cofundador e uma das estruturas fundamentais da identidade sonora do Hoobastank.
A guitarra de Estrin não vive apenas de riffs.
Ela funciona como textura, ataque, sustentação e engrenagem rítmica.
É especialmente interessante ouvi-lo no primeiro disco porque muitas vezes guitarra, baixo e bateria parecem pensar juntos.
Não existe aquela sensação de:
“a seção rítmica toca aqui e o guitarrista coloca alguma coisa em cima”.
Tudo se encaixa.
CHRIS HESSE — O HOMEM ATRÁS DA BATERIA QUE COMEÇOU NO PIANO
Aqui a história fica particularmente boa.
Chris Hesse começou a estudar piano aos cinco anos de idade.
Durante a adolescência, guitarra e bateria começaram a ocupar mais espaço.
Hesse também estudou voz e guitarra e passou por diferentes formas de percussão.
Sua experiência com piano facilitou inclusive seu desenvolvimento em instrumentos como bells e tímpanos.
Ou seja:
Isso aparece no modo como ele constrói impacto.
Hesse não precisa tocar todas as notas possíveis.
Ele sabe quando bater.
E sabe quando deixar o silêncio fazer parte do golpe.
JESSE CHARLAND — O HOMEM QUE COSTURA O CHÃO
Jesse Charland entrou para o Hoobastank em 2009.
Sua função principal é o baixo.
Mas sua participação também inclui teclados e backing vocals.
Isso transforma sua posição em algo maior do que simplesmente sustentar frequências graves.
Charland ajuda a costurar guitarra, bateria e voz.
Quando a guitarra de Estrin precisa respirar, o corpo permanece.
Quando Chris Hesse empurra a música, Charland ajuda a mover a massa inteira.
ENTÃO ACONTECEU “THE REASON”
Dois anos depois do álbum de estreia, a história mudou de tamanho.
O Hoobastank entrou em estúdio com o produtor Howard Benson.
O disco recebeu um nome simples:
The Reason.
E dentro dele havia uma música com o mesmo nome.
Nenhum integrante poderia saber exatamente o que aconteceria depois.
“The Reason” não precisava ser complexa.
Não precisava mostrar todas as habilidades da banda.
Não precisava sequer representar tudo aquilo que Hoobastank era musicalmente.
Ela precisava fazer uma coisa:
E acertou.
A progressão é imediatamente reconhecível.
A guitarra não invade.
A bateria não tenta destruir o arranjo.
A voz de Robb carrega arrependimento.
E o refrão cresce até parecer maior que a própria gravação.
Foi o momento em que uma música deixou de pertencer apenas à banda.
Passou a pertencer às pessoas.
Agora escute o público.
Esse é o verdadeiro teste de uma música vinte anos depois.
Não a posição numa parada antiga.
Não a quantidade de vezes que um videoclipe apareceu na televisão.
Uma plateia.
Centenas ou milhares de pessoas.
E todas elas sabendo exatamente...
quando cantar.
UMA MÚSICA DE 2003 ENCONTRA UMA GERAÇÃO QUE NEM ESTAVA LÁ
E então aconteceu outra coisa extraordinária.
“The Reason” começou a ganhar uma segunda vida.
Em 2023, a série Beef, da Netflix, colocou a música no primeiro episódio.
E não foi utilizada simplesmente porque alguém precisava preencher alguns minutos de trilha sonora.
A própria equipe responsável pela música da série explicou que a faixa funcionava liricamente e musicalmente dentro daquele universo.
Resultado:
pessoas que atravessaram os anos 2000 ouviram novamente.
E pessoas que talvez nem fossem nascidas quando The Reason apareceu ouviram pela primeira vez.
Para outra, Hoobastank pode ser descoberta.
TikTok, streaming, séries e novos usos do catálogo fizeram aquilo que rádio e MTV haviam feito duas décadas antes:
colocaram a música diante de alguém.
Só que agora esse alguém pode ter quinze, vinte ou vinte e cinco anos.
“HOW DO YOU SLEEP?”
A válvula criativa voltou a abrir
E aqui está a parte que impede esta matéria de ser apenas uma peça nostálgica.
O Hoobastank voltou a lançar música original.
“How Do You Sleep?” marcou o retorno da banda com material novo depois de um longo intervalo.
E existe uma ponte muito interessante para o passado.
Howard Benson voltou.
O produtor ligado ao período de The Reason novamente aparece conectado à banda quando ela decide escrever outra página.
Doug Robb descreveu o momento como a abertura de uma espécie de válvula criativa.
Isso é importante.
Porque existe uma diferença enorme entre:
“vamos tocar nosso primeiro disco porque completou 25 anos”
e:
“vamos tocar nosso primeiro disco porque completou 25 anos — enquanto voltamos a criar música nova”.
A MÁQUINA DE NOSTALGIA NÃO É SUFICIENTE
O Hoobastank também vive atualmente num circuito curioso.
A banda aparece para fãs antigos.
Para novos ouvintes.
Para públicos de festivais.
Para quem chega pelo streaming.
Para quem encontrou “The Reason” na Netflix.
E para quem ainda lembra exatamente onde estava quando “Crawling in the Dark” começou a tocar na televisão.
Essa mistura é poderosa.
Porque nostalgia sozinha possui prazo.
Descoberta renova o prazo.
20 DE NOVEMBRO. HOLLYWOOD. THE ROXY.
E então voltamos ao ponto onde começamos.
Uma noite em Los Angeles.
O Roxy Theatre.
Audiovent junto deles.
O álbum de 2001 inteiro.
Doug Robb.
Dan Estrin.
Chris Hesse.
Jesse Charland.
Uma banda que viveu a explosão das rádios de rock do começo do século.
Sobreviveu à transformação da indústria.
Sobreviveu ao momento em que o streaming desmontou as regras.
E agora assiste ao próprio catálogo reaparecer diante de outra geração.
O PASSADO NÃO VOLTOU
Talvez essa seja a frase errada.
O passado não voltou.
Ele simplesmente nunca foi embora.
Existe uma crueldade peculiar em ter um sucesso do tamanho de “The Reason”.
Ele pode abrir todas as portas.
E também pode fazer milhões de pessoas esquecerem que existe uma banda inteira atrás daquela música.
Por isso tocar o primeiro álbum inteiro é tão apropriado.
Antes do megahit.
Antes das cifras.
Antes de milhões de ouvintes.
Antes de uma geração associar quatro homens a uma única canção...
MR. NOMAD'S FINAL NOTE
Vinte e cinco anos são tempo suficiente para transformar moda em história.
Também são tempo suficiente para descobrir quais músicas realmente sobreviveram.
“Crawling in the Dark” sobreviveu.
“The Reason” sobreviveu.
O primeiro álbum sobreviveu.
E aparentemente aqueles quatro homens ainda têm vontade de entrar numa sala, ligar os instrumentos e descobrir o que acontece.
Talvez seja exatamente isso que separa uma banda que existiu...
de uma banda que ainda existe.
3... 2... 1... CLICK!
Fontes e referências
- Hoobastank — site oficial e agenda da banda.
- Universal Music Japan — biografia e histórico do Hoobastank.
- Yamaha — biografia e formação musical de Chris Hesse.
- Netflix Tudum — trilha sonora oficial de Beef.
- Registros públicos de formação, discografia e apresentações citadas.
- Vídeos incorporados via YouTube em modo de privacidade aprimorada.
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