Durante décadas, havia uma maneira muito fácil de reconhecer o ZZ Top.
Duas barbas enormes.
Dois pares de óculos escuros.
Duas guitarras na frente.
E atrás deles, quase sempre com um sorriso discreto e sem qualquer necessidade de disputar atenção, estava o homem que mantinha tudo andando.
Em cada shuffle.
Em cada virada.
Em cada silêncio colocado exatamente onde deveria estar.
Em cada noite em que Billy Gibbons e Dusty Hill podiam deixar o palco respirar porque sabiam que, atrás deles, o pulso continuaria firme.
Em 18 de agosto de 2026, Frank Beard morreu aos 77 anos. Ele estava sob cuidados paliativos em seu rancho em Richmond, Texas, com a família ao lado.
A causa de sua morte não foi divulgada.
Mas esta história não começa no fim.
Começa no Texas.
Muito antes das barbas.
Muito antes da MTV.
Muito antes de Eliminator.
Muito antes até de o mundo saber o que significava o nome ZZ Top.
Chapter I · Before ZZ TopFRANK LEE BEARD
Frank Lee Beard nasceu em 11 de junho de 1949, em Frankston, Texas.
Ele cresceu em Irving e estudou na Irving High School.
A bateria entrou cedo em sua vida.
Ainda adolescente, Frank começou a atravessar aquela escola que formou tantos músicos de sua geração: pequenos clubes, bandas locais, amplificadores, palcos modestos e horas suficientes tocando para descobrir que técnica sem sensação não vale muita coisa.
Antes do ZZ Top, passaram pela trajetória de Beard nomes como The Cellar Dwellers, The Hustlers, The Warlocks e American Blues.
E foi antes do ZZ Top que surgiu uma parceria que acabaria sendo uma das relações musicais mais duradouras da história do rock.
Frank e Dusty já dividiam música antes de Billy Gibbons entrar definitivamente na equação.
Tocaram juntos.
Aprenderam juntos.
Construíram juntos uma linguagem rítmica.
Quando alguém escuta décadas depois a maneira como baixo e bateria se encaixam no ZZ Top, é fácil esquecer que aquilo não apareceu magicamente dentro de um estúdio.
Era uma conversa que vinha de antes.
ENTÃO VEIO BILLY GIBBONS
No fim dos anos 1960, Billy Gibbons vinha do The Moving Sidewalks e procurava a formação que transformaria uma ideia de banda em alguma coisa capaz de durar.
Frank Beard entrou.
E Frank conhecia um baixista.
Dusty Hill.
Dusty Hill.
Frank Beard.
A formação clássica do ZZ Top estava completa.
O trio tocou junto pela primeira vez em 1970 e se tornaria uma das formações mais estáveis da história do rock.
Décadas depois, seria difícil imaginar qualquer um daqueles nomes sem os outros dois.
Mas em 1970 eles ainda eram apenas três texanos tentando descobrir até onde aquele som poderia chegar.
Em janeiro de 1971 veio o primeiro álbum.
ZZ TOP'S FIRST ALBUM
O nome parece quase inocente olhando de hoje.
Primeiro álbum.
Como se alguém soubesse quantos ainda viriam.
Depois surgiu Rio Grande Mud, em 1972.
A identidade estava ficando mais clara.
Blues.
Boogie.
Rock.
Texas.
E muito espaço entre as notas.
Chapter III · 1973TRES HOMBRES
Em 1973, o terceiro disco abriu outra porta.
Tres Hombres.
E dentro dele estava uma música que se tornaria inseparável do nome ZZ Top.
LA GRANGE
Poucas músicas explicam tão bem o que Frank Beard fazia.
Ele não tenta atropelar Billy Gibbons.
Não tenta transformar cada compasso em demonstração.
Ele cria o terreno.
O shuffle anda.
A guitarra entra.
O baixo ocupa exatamente o espaço necessário.
E a música parece impossível de parar.
Depois olhe para trás do palco.
Ali está Frank.
Chapter IV · The Texas YearsA BANDA FICOU GRANDE
Depois de Tres Hombres, ZZ Top deixou de ser apenas uma grande banda texana.
O país começou a perceber.
Fandango! chegou em 1975.
“Tush” entrou para o repertório definitivo.
Tejas veio em 1976.
E as turnês cresceram até adquirir dimensões que hoje parecem inventadas.
Palcos enormes.
Cenografia texana.
Animais vivos.
Cascavéis.
Longhorns.
Uma banda transformando a própria origem em espetáculo sem abandonar o blues que sustentava tudo aquilo.
A estrada, porém, não era gratuita.
Depois de anos de atividade intensa, os três fizeram uma pausa.
Cada um seguiu para um lado.
E foi durante essa pausa que aconteceu uma das maiores coincidências visuais da história do rock.
Billy deixou a barba crescer.
Dusty deixou a barba crescer.
Quando se reencontraram, descobriram que os dois haviam voltado praticamente com o mesmo visual.
Frank Beard?
A piada seria repetida durante décadas.
O som, não.
O som continuava sendo coisa séria.
FRANK TAMBÉM PRECISOU SOBREVIVER À ESTRADA
A história do ZZ Top não foi feita apenas de discos, carros e videoclipes.
Frank enfrentou dependência química durante os anos de maior intensidade da primeira fase da banda.
Durante a pausa do ZZ Top, ele conseguiu atravessar a dependência e seguir adiante.
É importante dizer isso sem transformar sofrimento em espetáculo.
Porque a história de Frank também é a história de alguém que conseguiu continuar.
Quando a banda voltou, não voltou procurando outro homem para a bateria.
Frank ainda era Frank.
Aquela cadeira ainda era dele.
Chapter VI · 1983ELIMINATOR
Então chegaram os anos 80.
E o ZZ Top fez uma coisa que poucas bandas com raízes tão profundas no blues conseguem fazer.
Mudou.
Sem deixar de ser reconhecível.
Em 1983 veio Eliminator.
Sintetizadores.
Sequenciamento.
Produção eletrônica.
Hot rods.
Óculos escuros.
As barbas.
E uma televisão musical chamada MTV entrando em milhões de casas.
“Gimme All Your Lovin'”.
“Sharp Dressed Man”.
“Legs”.
Os videoclipes transformaram Billy e Dusty em personagens instantaneamente reconhecíveis.
Frank continuou atrás.
Como sempre.
ESCUTE FRANK
Tire os carros.
Tire os videoclipes.
Tire os óculos.
Tire as barbas.
Tire a imagem inteira.
Agora escute.
Backbeat: firme, constante, reconhecível.
Shuffle: movimento sem pressa e sem rigidez.
Pocket: tocar dentro da música, não em cima dela.
Espaço: saber exatamente quando não tocar.
Groove: fazer a música avançar sem parecer esforço.
Frank não construiu sua reputação tentando vencer uma competição imaginária de velocidade.
Não era esse o trabalho.
O trabalho era fazer ZZ Top soar como ZZ Top.
Billy Gibbons descreveu Frank, depois de sua morte, como um dos bateristas naturalmente mais inovadores que conheceu.
E destacou exatamente aquilo que estava ali desde o início:
Assista desta vez de uma maneira diferente.
Não olhe apenas para Billy.
Não olhe apenas para Dusty.
AS DÉCADAS PASSARAM
Os anos 80 terminaram.
ZZ Top não.
Vieram Recycler.
Antenna.
Rhythmeen.
XXX.
Mescalero.
Mais tarde, La Futura.
A indústria mudou.
O vinil virou CD.
O CD perdeu espaço para o digital.
MTV mudou.
A internet chegou.
Streaming virou rotina.
Bandas nasceram, ficaram famosas, desapareceram e voltaram.
E a fotografia do ZZ Top continuava tendo os mesmos três homens.
Dusty Hill.
Frank Beard.
Não era apenas longevidade.
Era uma vida compartilhada.
Eles não apenas tocaram juntos por décadas. Eles envelheceram juntos.
ROCK & ROLL HALL OF FAME
Em 2004, chegou uma espécie de reconhecimento oficial para aquilo que o público já sabia fazia muito tempo.
ZZ Top entrou para o Rock & Roll Hall of Fame.
Quem apresentou a banda foi Keith Richards.
E na placa da indução aparecem os três nomes:
Frank Beard
Dusty Hill
Billy Gibbons
Naquela noite, Frank resumiu a própria experiência de vida de uma forma que hoje soa diferente.
Grande parte da vida havia sido uma agradável surpresa.
Ainda havia muito palco pela frente.
Chapter X · 28 July 2021DUSTY
Então aconteceu aquilo que durante décadas parecia quase impossível.
Em 28 de julho de 2021, Dusty Hill morreu.
Ele tinha 72 anos.
Para o público, havia morrido o baixista do ZZ Top.
Para Frank, era muito mais antigo do que isso.
Dusty estava lá antes.
Antes de Billy.
Antes dos grandes discos.
Antes da fama.
Antes da MTV.
Antes de existir uma imagem chamada ZZ Top.
Elwood Francis assumiu o baixo.
Billy continuou.
Frank continuou.
Mas, pela primeira vez em mais de meio século, aquela fotografia havia mudado.
FRANK CONTINUOU TOCANDO
Mesmo depois da perda de Dusty, Frank continuou atrás da bateria.
Mas o corpo começou a impor limites.
Em março de 2025, problemas no pé e no tornozelo o afastaram temporariamente de parte da agenda do ZZ Top.
A banda seguiu com substituições temporárias.
Frank ainda retornou.
Ainda houve palco.
Ainda houve bateria.
Ainda houve “La Grange”.
Ainda houve “Sharp Dressed Man”.
Ainda houve mais algumas noites em que aquele velho mecanismo texano funcionou novamente.
Em 2026, porém, sua condição de saúde voltou a interferir na estrada.
Um show no Hollywood Bowl foi cancelado.
Pouco depois, veio a notícia de que Frank estava sob cuidados paliativos.
Chapter XII · 18 August 2026THE FINAL BEAT
Richmond, Texas.
O rancho de Frank.
Família ao lado.
Cuidados paliativos.
E, aos 77 anos, a vida de Frank Lee Beard chegou ao fim.
A causa da morte não foi divulgada.
Ele deixou a esposa, Debbie Meredith, e três filhos.
E deixou um catálogo de música que atravessou mais de cinco décadas.
Deixou discos.
Deixou shows.
Deixou gravações.
Deixou aquele shuffle.
Deixou um som que milhões de pessoas talvez nunca tenham parado para identificar pelo nome, mas reconheceriam imediatamente ao ouvi-lo.
E deixou Billy Gibbons.
Depois de Dusty em 2021 e Frank em 2026, Billy é agora o último integrante vivo daquela formação clássica.
A música continuará.
Aquele trio agora pertence à história.
MR. NOMAD IS IN MOURNING
Algumas notícias pertencem ao jornal.
Outras atravessam a porta e entram na nossa própria história.
Frank Beard pertence à segunda categoria.
Eu não conheci Frank pessoalmente.
Mas conheço o som.
Conheço aquelas músicas desde uma época em que muita coisa que hoje faz parte da minha vida ainda nem existia.
ZZ Top esteve na minha infância.
Esteve na adolescência.
Esteve nos anos que vieram depois.
Esteve no rádio, na televisão, nos discos, nos clipes, nos shows e naquela sensação de reconhecer uma banda antes mesmo de alguém dizer o nome.
É estranho perceber que certos músicos acompanham nossa vida durante tanto tempo que parecem fazer parte permanente do cenário.
Eles estavam ali ontem.
Estavam ali dez anos atrás.
Estavam ali quando éramos muito mais jovens.
E então um dia chega uma notícia dizendo que um deles não está mais aqui.
Não perdemos apenas um músico.
Por alguns segundos, percebemos o tamanho do caminho que nós mesmos percorremos enquanto aquela música tocava.
Hoje eu não queria simplesmente publicar que Frank Beard morreu.
Eu queria voltar.
Voltar ao Texas.
Voltar ao começo.
Voltar a Billy, Dusty e Frank ainda jovens.
Voltar a La Grange.
Voltar a Eliminator.
Voltar às imagens que fizeram parte da nossa memória.
E deixar registrado aqui que, durante mais de meio século, existiu atrás daquele ZZ Top que o mundo enxergava um homem que fazia tudo andar.
Hoje, 19 de agosto de 2026, a Passport Radio está de luto.
E eu também.
Obrigado, Frank.
Pela música.
Pelo tempo.
E pelo beat.
Contexto e referências
Esta homenagem foi preparada a partir de materiais históricos e contemporâneos sobre Frank Beard e ZZ Top.
- Associated Press — cobertura do falecimento de Frank Beard e trajetória do ZZ Top.
- Reuters — anúncio da morte, declaração de Billy Gibbons e contexto da carreira.
- Rock & Roll Hall of Fame — ZZ Top, indução de 2004 e formação homenageada.
- Recording Academy / GRAMMY — registros da carreira e indicações.
- Arquivo oficial do ZZ Top — formação, história e material institucional.
- Imprensa do Texas — nascimento, juventude, primeiros anos e trajetória local de Frank Beard.
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