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Paula Toller cantando ao microfone no palco, sob iluminação azul e violeta
ROCK BRASIL · ESPECIAL

Os 5 discos que viraram a cabeça da Paula Toller (e o que isso tem a ver com a sua banda ferrada na garagem)

De Rita Lee a Genesis, passando por Milton Nascimento, Lô Borges, Chico Buarque e Chrissie Hynde: os discos que ajudaram a formar uma das vozes mais marcantes do pop rock brasileiro. E uma conversa nada comportada sobre música, algoritmos, pizzas, grandes estrelas e bandas que ainda ensaiam na garagem.

Mr. Nomad · 28 de outubro de 2026 · Zurique

Os 5 discos que viraram a cabeça da Paula Toller (e o que isso tem a ver com a sua banda ferrada na garagem)

Puxa a cadeira. Senta aí nessa desgraça de madeira que tá com o pé meio bambo e não repara na poeira.

Você provavelmente clicou aqui achando que ia ler aquele textinho pasteurizado de portal engomado de música, né? Aquela conversa mole cheia de “a transcendência de sua relevante trajetória artística” e “a inestimável contribuição poética nos anais da MPB”.

Esquece.

Anais é uma ova! 🙄💩

Aqui a gente fala que nem gente de verdade.

Você tá sentado comigo numa mesa de bar, com um copo na mão. Se não tiver nada no copo, finge que tem. Lá no fundo, um infeliz está tentando afinar um violão de doze cordas que provavelmente já deveria ter sido aposentado.

A nossa conversa vai de Rita Lee a Genesis, passa pelo desgraçado do algoritmo do Google, esbarra na sua banda de garagem que nem o cachorro aguenta ouvir e ainda encontra espaço para o Roberto.

Sim, o Roberto.

Porque em qualquer boteco do planeta Terra sempre aparece um mala de papelão molhado e sem alça que ninguém convidou. E pensa numa mala desgraçada! Não dá nem pra carregar, porque além de molhada, não tem alça! O sujeito chega com uma apostila debaixo do braço e uma necessidade desesperada de explicar o óbvio.

Segura a peruca, abre essa garrafa e vem comigo.

Cena 1: A mesa, o vinil e o abestado do Roberto

Olha a nossa bancada.

Eu, Mr. Nomad, tentando contar uma história sem perder a linha do raciocínio.

Você, lendo e pensando: “Caramba, esse sujeito tá sentado do meu lado jogando amendoim em mim!”

Paula Toller, ainda menina, trancada no quarto, ouvindo aqueles discos até quase gastar a agulha.

E Roberto, o desocupado que ninguém chamou, com a camisa manchada de gordura e a expressão solene de quem está prestes a transformar uma conversa de bar numa palestra de três horas.

Eu me viro para você e começo:

— Então, os cinco discos que viraram a cabeça da Paula…

O Roberto levanta o dedo.

— Com licença, Mr. Nomad! Antes de entrar nesse mérito, você não acha imperativo pontuar que Nevermind, do Nirvana, redefiniu a estética grunge global? Veja bem, tenho aqui uma apostila com quarenta curiosidades inéditas sobre Kurt Cobain…

CALA A BOCA, ROBERTO!

Pelo amor dos meus filhinhos, senta aí e engole esse amendoim a seco, desgraçado! Ninguém perguntou nada! Depois a gente fala de Nirvana, droga! 🙄🧱

Enfim.

Onde estávamos?

Na Paula, naturalmente.

Ah, a Paula…

Ai, ai, ai… 👀😏

Peraí. Onde foi que eu parei? The Mission? NAAAO! The Mission é gótico! De onde saiu isso? Agora lembrei de Iron Maiden!

Pronto. Meu cérebro resolveu organizar um festival inteiro enquanto eu tentava falar de uma mulher.

FOCO, NOMAD!

É que a Paula é a Paula, né, gente?

Convenhamos.

A mulher canta lindamente, tem uma presença de palco extraordinária e continua uma gata de parar o trânsito.

Sim, GATA.

Falei e pronto.

Paula Toller já era lindíssima quando o Kid Abelha dominava as rádios brasileiras e continua lindíssima hoje. Tem gente que parece negociar diretamente com o calendário.

E ela ainda tem aquele sorriso.

Aquela voz.

Aquela elegância.

DROGA, PERDI O RACIOCÍNIO DE NOVO! 😂😂😂

Mas a história fica ainda melhor quando a gente descobre o que tocava na vitrola dessa LINDA E TALENTOSA MULHER antes de ela se tornar uma das vozes mais reconhecíveis do pop rock nacional.

Porque a Paula não apareceu pronta numa capa de revista.

Antes de tudo, existia uma menina ouvindo discos.

E que discos.

O ritual do Sr. SEO (porque o monstro precisa comer)

Antes de abrir a tampa da vitrola, preciso alimentar o Sr. SEO do Google.

Esse bicho é carente, tinhoso e rancoroso.

Se não recebe sua ração de palavras-chave, enterra a gente no lixão da internet com a mesma delicadeza de uma gravadora esquecendo uma banda independente no fundo do catálogo.

Então vamos lá.

Abre a boca, robô.

Paula Toller, Kid Abelha, rock nacional, pop rock brasileiro, Rita Lee, Tutti Frutti, Fruto Proibido, Milton Nascimento, Lô Borges, Clube da Esquina, Minas, Chico Buarque, Construção, Genesis, Peter Gabriel, Selling England by the Pound, Pretenders, Chrissie Hynde, rock progressivo, MPB, rock dos anos 70, rock dos anos 80, música independente, bandas novas, Nirvana, Metallica, Sepultura, Megadeth, Kurt Cobain, James Hetfield, Andreas Kisser e Dave Mustaine.

Pronto.

Mastiga a farofa digital, seu desgraçado.

Mas espera.

O Sr. SEO ainda está olhando para a gente.

Quer sobremesa.

Então toma:

BTS, BLACKPINK, TWICE, Stray Kids, NewJeans, aespa, BABYMONSTER, SEVENTEEN, ENHYPEN, Taylor Swift, Lady Gaga, Dua Lipa, Ariana Grande, Billie Eilish, Sabrina Carpenter, Olivia Rodrigo, Bruno Mars, The Weeknd e Beyoncé.

SATISFEITO AGORA?

Não?

Quer uma pizza também?

VAI TER PIZZA MAIS ADIANTE, INFELIZ! 🍕🤣

Agora deixa a gente conversar.

A Paula, o quarto e o disco onde você “mora” dentro

Volta comigo para os anos 70 e 80.

Paula adolescente, dentro do quarto.

Nada de Spotify. Nada de playlists infinitas. Nada dessa facilidade de ouvir oito segundos de uma música e passar para outra porque o algoritmo resolveu que sua atenção tem prazo de validade de um iogurte aberto.

Naquela época, comprar disco exigia algum planejamento.

Você juntava sua SUADA GRANA. Aquela que você tirava sabe-se lá de onde! Economizava no lanche, guardava moeda, contava nota amassada, fazia contas que nem o gerente do banco conseguiria explicar.

Tudo para comprar AQUELE DISCO.

Sim, aquele.

O mesmo que você visitava todos os santos dias na loja de discos.

Entrava.

Olhava.

Pegava.

Virava a capa.

Lia as músicas.

Devolvia.

Ia embora.

No dia seguinte?

LÁ ESTAVA VOCÊ DE NOVO!

O dono da loja já não suportava mais olhar para sua cara.

— Lá vem esse infeliz outra vez…

— Bom dia! Ainda tem aquele disco?

— TEM, DESGRAÇADO! TÁ NO MESMO LUGAR DE ONTEM!

Até que finalmente chegou o grande dia.

O DIA D!

Você entrou na loja.

O dono já estava preparado para a visita diária.

Talvez até tivesse separado uma cadeira para você ficar namorando a capa.

Mas dessa vez…

PÁ!

Você colocou o dinheiro no balcão!

— HOJE EU VOU LEVAR!

O homem quase caiu para trás.

— COMO ASSIM VAI LEVAR????

— VOU COMPRAR!

— COMPRAR MESMO????

— SIM, DROGA!

O SUJEITO QUASE SOLTOU FOGOS DE ARTIFÍCIO! 😂

E lá foi você para casa, abraçado ao seu tesouro.

Chegou, tirou o disco da embalagem com um cuidado quase cirúrgico e colocou na vitrola.

SIM, VITROLA, TÁ?

Aquela linda e maravilhosa…

SÓ QUE NÃO!

Porque era a única relíquia musical da família, já tinha sobrevivido a três mudanças, dois consertos duvidosos, uma gambiarra feita pelo seu tio e provavelmente fazia um barulho de trator quando ligava.

Mas era a sua vitrola.

E você amava aquela desgraça.

Então colocava o bolachão para rodar.

E pronto.

AQUELE DISCO ERA SEU UNIVERSO DURANTE SEMANAS.

Você ouvia o lado A.

Virava.

Ouvia o lado B.

Decorava os detalhes, os instrumentos, as letras, os erros, as respirações, os pequenos ruídos da gravação.

Até a capa tinha importância.

Importância?

VOCÊ NAMORAVA AQUELA CAPA!

Você praticamente casava com ela!

Se bobear, colocava num molde, mandava emoldurar e pendurava na parede da sala, de tamanha admiração.

E ainda ficava olhando para ela, orgulhoso, pensando:

— ESSA BELEZURA É MINHA!

Não era uma imagem de dois centímetros na tela do telefone.

Era um objeto que você segurava, examinava e deixava perto do aparelho enquanto a música tocava.

Sim, enquanto o bolachão rodava ali, você rezava para a desgraçada da agulha não riscar aquela preciosidade.

Porque, convenhamos, depois de quase ser despejado da loja de discos de tanto aparecer por lá, perder aquele vinil por causa de uma agulha vagabunda seria motivo para declarar luto oficial na família.

Você praticamente morava dentro daquele disco.

E a menina que cresceu ouvindo aquelas gravações seria, anos depois, a voz de músicas que atravessaram gerações com o Kid Abelha.

Agora vem a parte interessante.

A lista anuncia cinco discos.

Mas aqui na mesa aparecem seis.

Porque a saideira é por minha conta, droga!

1. Rita Lee & Tutti Frutti: Fruto Proibido

O crítico engravatado pega o microfone e anuncia:

“Uma obra canônica do rock brasileiro.”

Que beleza.

Que elegância.

Que vontade de jogar um amendoim nele.

Porque Fruto Proibido, lançado em 1975, não precisava de discurso acadêmico para fazer estrago.

Bastava colocar a agulha no vinil.

Rita Lee já entrava ARROMBANDO A PORTA!

Montava o palco.

Pegava o microfone.

Chamava a banda.

E começava a tocar.

Todo mundo olhando.

— FOI VOCÊ QUE CHAMOU?

— EU NÃO!

— E VOCÊ?

— TAMBÉM NÃO!

— ENTÃO POR QUE TÁ ME PERGUNTANDO, DESGRAÇADO??? DEIXA A MULHER TOCAR!

E ELA TOCAVA!

Cantava.

Compunha.

Provocava.

Mandava ver.

E mostrava que uma mulher podia ocupar aquele espaço sem pedir autorização a ninguém.

E não precisava imitar os homens.

Podia ser Rita Lee.

IRÔNICA.

ÁCIDA.

INTELIGENTE.

LINDA.

PROVOCADORA.

E, acima de tudo, ELA MESMA MANDAVA NELA. E PONTO.

Imagine o impacto disso numa JOVEM E LINDA GAROTA que estava descobrindo a música.

A mensagem não vinha embrulhada numa palestra sobre emancipação feminina.

Vinha com guitarra, bateria, refrão e atitude.

VOCÊ PODE SUBIR NO PALCO E FAZER O QUE QUISER COM A SUA MÚSICA.

E a Rita fez.

O Roberto levanta a mão:

— Mas, tecnicamente, a construção harmônica do Tutti Frutti…

ROBERTO, PEGA ESSA CERVEJA MORNA E VAI CONTAR OS ACORDES LÁ FORA!

Rita Lee & Tutti Frutti | Hollywood Rock (Estádio de General Severiano, 1975)

2. Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina

Agora a conversa muda.

Saem as guitarras debochadas de Rita Lee e entra aquele universo musical que Milton Nascimento, Lô Borges e seus companheiros construíram em Minas Gerais.

Clube da Esquina, de 1972.

Um disco que consegue ser brasileiro até a medula e, ao mesmo tempo, conversar com o mundo inteiro.

Tem rock.

Tem jazz.

Tem música brasileira.

Tem harmonias que parecem inventadas por alguém que não recebeu o manual de instruções da música convencional.

E ainda bem.

Milton canta com aquela voz que parece alcançar lugares onde os outros cantores nem sabem que existe uma porta.

Lô Borges traz suas composições e melodias.

As guitarras conversam com os arranjos.

As vozes se encontram.

E o resultado é um álbum que continua despertando curiosidade mais de meio século depois.

Para uma jovem cantora em formação, aquilo era uma descoberta importante: uma canção não precisava seguir sempre a mesma receita para emocionar.

Podia ser complexa.

Podia ser delicada.

Podia surpreender.

E PODIA SER LINDA PRA CARAMBA.

Se você toca numa banda de garagem e acha que já ouviu tudo, faça um favor a si mesmo: escute esse disco inteiro.

Sem pular faixas.

Sem ficar mexendo no telefone.

E sem o Roberto explicando cada acorde.

Milton Nascimento, Beto Guedes e Lô Borges | Clube da Esquina, ao vivo no Festival Canta Minas (1994)

3. Milton Nascimento: Minas

Milton de novo?

SIM, MILTON DE NOVO.

Algum problema?

Chora na cama que é lugar quente.

E aproveita para pegar seu maior confidente.

SEU TRAVESSEIRO!

Sim, ele mesmo.

Aquele desgraçado sabe de tudo.

Sabe dos seus segredos.

Das suas noites mal dormidas.

Das conversas que você ensaiou e nunca teve coragem de começar.

Daquela pessoa que você levou um fora e jurou que tinha superado.

MENTIRA!

Você lembra até hoje! 😂

Então abraça o travesseiro.

Desabafa.

Conta tudo.

Pensa naquele momento.

Naquela música.

Naquela pessoa.

Naquela mensagem que você escreveu, apagou, escreveu de novo e acabou não mandando.

Tá bom.

PAREI!

Vamos voltar ao Milton antes que essa matéria vire uma sessão coletiva de desilusões amorosas.

Lançado em 1975, Minas é daqueles discos que parecem construir um ambiente inteiro dentro da sala.

Você coloca para tocar e, de repente, a casa fica diferente.

Os arranjos são ricos.

As vozes se misturam.

As melodias têm espaço para respirar.

É um álbum que pede atenção, mas recompensa cada minuto.

E tem uma coisa maravilhosa nisso: Milton não precisava berrar, exagerar ou fazer malabarismo para transmitir emoção.

A música fazia o trabalho.

A voz fazia o trabalho.

O silêncio entre as notas também.

E essa é uma das grandes lições que uma cantora como Paula poderia encontrar ali.

NÃO BASTA CANTAR BONITO. É PRECISO FAZER A PESSOA SENTIR ALGUMA COISA.

E, convenhamos, se existe alguém que sabe transformar uma melodia pop em algo que fica morando na cabeça da gente durante décadas, aquela música que gruda e parece chiclete preso no cabelo, que só cortando sai, essa pessoa é NOSSA LINDA E TALENTOSA PAULA TOLLER.

Agora, Roberto, pelo amor de Deus, não começa a explicar o que é uma escala modal.

Milton Nascimento e Esperanza Spalding | Fé Cega, Faca Amolada, ao vivo no Rock in Rio (2011)

4. Chico Buarque: Construção

Aqui a história fica ainda mais bonita.

Porque Chico Buarque entrou no universo musical de Paula pela vitrola do avô.

Pensa na cena.

A casa.

O avô.

O disco tocando.

A menina ouvindo.

Sem imaginar que aquelas canções ajudariam a formar sua maneira de entender música, letra e interpretação.

E estamos falando de Construção, lançado em 1971.

Um álbum extraordinário.

A faixa-título é uma demonstração impressionante do que acontece quando alguém domina as palavras e resolve brincar com elas até construir uma obra-prima.

As frases mudam.

As palavras se deslocam.

O sentido se transforma.

E a música continua avançando com uma força absurda.

Mas sabe o que torna tudo ainda mais interessante?

Chico não estava simplesmente mostrando que sabia escrever letras difíceis.

Ele estava contando histórias humanas.

Falando de gente.

De trabalho.

De amor.

De perda.

De uma sociedade inteira.

E é aí que entra a nossa lindíssima Paula.

AQUELA MENINA QUE OUVIA CHICO NA VITROLA DO AVÔ CRESCEU E SE TORNOU UMA MULHER CAPAZ DE FAZER MILHÕES DE BRASILEIROS CANTAREM HISTÓRIAS DE AMOR, DESEJO, SAUDADE E DESENCONTRO.

Olha que coisa maravilhosa.

A música que ela ouvia em família ajudava a construir seu repertório afetivo.

E, anos depois, a voz dela passaria a fazer parte das lembranças de outras famílias.

É assim que a música atravessa gerações.

Não precisa de certificado.

Não precisa de carimbo.

Não precisa do Roberto com uma apostila.

Precisa de uma boa canção e alguém disposto a ouvir.

E Paula, além de linda, sabe contar uma história cantando.

ISSO NÃO SE COMPRA NUM CURSO DE MARKETING MUSICAL, DROGA!

Chico Buarque | Desalento, ao vivo no Rio de Janeiro (2012)

5. Genesis: Selling England by the Pound

Agora vamos para a Inglaterra de 1973.

Um grupo de músicos resolve fazer canções longas.

PEÇAS TEATRAIS!

Sim, verdadeiras peças teatrais!

E Deus do céu, que obras!

E que peças!

Aquela época do rock progressivo tinha uma capacidade maravilhosa de transformar o palco num espetáculo inteiro.

E o Fish, que mais tarde faria suas próprias loucuras teatrais com o Marillion, também adorava esse negócio!

Mas aqui estamos falando do Genesis, na fase de Peter Gabriel, quando a banda já fazia essas apresentações completamente malucas, com figurinos, personagens, histórias e músicas que pareciam escapar de algum livro estranho encontrado no sótão.

GENESIS.

Na época de Peter Gabriel.

Phil Collins na bateria.

Tony Banks nos teclados.

Mike Rutherford no baixo e nas guitarras.

Steve Hackett na guitarra.

E aquele universo musical completamente maluco que o grupo estava construindo.

Selling England by the Pound é um dos grandes discos do rock progressivo.

Tem delicadeza.

Tem teatralidade.

Tem passagens instrumentais impressionantes.

Tem música que começa num lugar e termina em outro completamente diferente.

E o Peter Gabriel ainda aparecia no palco com figurinos que fariam qualquer vizinho chamar uma reunião extraordinária de condomínio.

QUE BANDO DE INGLESES MARAVILHOSAMENTE BIRUTAS! 🤯

Mas existe uma razão para esse disco aparecer numa conversa sobre Paula Toller.

O rock progressivo mostra como é possível organizar elementos musicais complexos sem perder a capacidade de emocionar.

E quem acha que pop bem-feito é necessariamente simples deveria prestar mais atenção aos arranjos, às linhas de baixo e às escolhas melódicas das boas bandas.

Porque simplicidade aparente não significa falta de inteligência musical.

Às vezes, o trabalho mais difícil é fazer uma canção sofisticada soar completamente natural.

E isso o Kid Abelha soube fazer muito bem.

Genesis | Live at Shepperton Studios, Selling England by the Pound Tour (1973)

A apresentação começa antes de a música propriamente engrenar, com o palco, os instrumentos e a preparação dos músicos. E quando o Genesis começa a tocar, entende-se por que essa formação entrou para a história do rock progressivo.

6. The Pretenders: Pretenders

Agora chegamos à saideira.

E que saideira.

THE PRETENDERS.

Chrissie Hynde.

Uma guitarra.

Uma voz inconfundível.

E aquela presença de palco de quem não precisa pedir licença para existir.

Quando Paula ouviu o grupo, ficou impressionada.

E não é difícil entender.

O primeiro álbum dos Pretenders, lançado em 1980, misturava rock, punk, new wave e melodias pop com uma naturalidade impressionante.

Chrissie Hynde tinha atitude.

Tinha personalidade.

Tinha uma voz que você reconhece quase imediatamente.

E, convenhamos...

QUE MULHER LINDA!

Era lindíssima naquela época.

E continua lindíssima até hoje.

Tem gente que envelhece.

Chrissie Hynde simplesmente continua sendo Chrissie Hynde, LINDA, com aquela elegância meio rebelde e a expressão de quem já ouviu todas as besteiras possíveis da indústria musical.

E convenhamos: para quem já dividiu palco com Iggy Pop, não é qualquer uma, né? KKKKKKK!

A mulher já viu de tudo nesse mundo do rock.

E não está nem um pouco interessada em ouvir outra besteira.

E isso combina perfeitamente com a história de Paula Toller.

Rita Lee havia mostrado que uma mulher podia comandar o próprio espaço no rock brasileiro.

Chrissie Hynde mostrava a mesma independência no cenário internacional.

Duas artistas completamente diferentes.

Duas personalidades fortes.

Duas vozes extraordinárias.

E uma lição que continua valendo para qualquer menina que hoje está ensaiando com sua primeira banda:

NÃO ESPERE ALGUÉM AUTORIZAR VOCÊ A SUBIR NO PALCO.

Suba.

Afine a guitarra.

Pegue o microfone.

E faça sua música.

Pretenders | Brass in Pocket, Live Rehearsal (1979)

O Roberto tenta ressuscitar na mesa…

— Ô, Nomad… mas e o Metallica? E o Sepultura? Você jurou pela memória da sua avó que ia falar do thrash metal do Dave Mustaine…

Meu Deus.

Ele ainda está aqui.

ROBERTO!

SEPULTURA! METALLICA! NIRVANA! MEGADETH!

Pronto!

Dave Mustaine rangendo os dentes!

James Hetfield berrando “YEAH!”

Andreas Kisser detonando a distorção!

Kurt Cobain quebrando a guitarra!

Tá feliz agora?

Quer que eu chame o Ozzy também?

O Tony Iommi?

O Bruce Dickinson?

O Lemmy?

QUER QUE EU MONTE O WACKEN INTEIRO AQUI DENTRO DO BOTECO, DESGRAÇADO???

Agora limpa esse amendoim do canto da boca e deixa a gente terminar a conversa! 😂🤣

O que a grande mídia faz com você (e por que isso dá nos nervos)

Agora vem a parte que me irrita.

E bastante.

Porque enquanto você está aí tentando fazer sua banda funcionar, ensaiando depois do trabalho, dividindo o custo de uma sala minúscula com mais quatro infelizes e tentando descobrir por que o amplificador resolveu morrer justamente no dia da gravação, existe uma indústria inteira decidindo o que merece atenção.

E o mais curioso é que nem sempre essa decisão tem alguma relação com a qualidade da música.

Às vezes tem relação com números.

Às vezes com contratos.

Às vezes com campanhas publicitárias.

Às vezes com a quantidade de seguidores que alguém conseguiu acumular.

E às vezes com o simples fato de que todo mundo já está falando da mesma coisa.

Veja bem.

EU NÃO TENHO ABSOLUTAMENTE NADA CONTRA MÚSICA POPULAR.

Pelo contrário.

Se você gosta de Taylor Swift, ótimo.

Se é fã de Lady Gaga, maravilhoso.

Se passa o dia ouvindo Dua Lipa, Ariana Grande, Billie Eilish, Sabrina Carpenter, Olivia Rodrigo, Bruno Mars, The Weeknd ou Beyoncé, seja feliz.

E se o seu negócio é K-pop?

Também temos espaço para isso.

BTS, BLACKPINK, TWICE, Stray Kids, SEVENTEEN, ENHYPEN, aespa, NewJeans, BABYMONSTER.

Tem talento aí.

Tem produção musical impressionante.

Tem artistas trabalhando pra caramba.

Tem fãs apaixonados.

Tem música boa.

O PROBLEMA NÃO SÃO ESSES ARTISTAS.

O problema começa quando a indústria e parte da imprensa resolvem agir como se só existissem esses nomes.

Como se o planeta tivesse acabado de produzir sua última banda interessante.

Como se toda descoberta musical precisasse vir acompanhada de cinquenta milhões de seguidores e uma campanha internacional de marketing.

E aí acontece aquela maravilha.

Um portal publica uma matéria sobre Taylor Swift.

Outro publica uma matéria sobre Taylor Swift.

Um terceiro publica uma matéria explicando por que os outros dois publicaram matérias sobre Taylor Swift.

Enquanto isso, uma banda independente lança um disco excelente.

Silêncio.

Uma cantora grava um EP inteiro no quarto.

Silêncio.

Um grupo de metal faz um show espetacular para cinquenta pessoas.

Silêncio.

Uma banda de K-pop independente, sem uma grande agência por trás, tenta divulgar seu primeiro single.

Silêncio também.

MAS SE A LADY GAGA TROCAR A COR DO ESMALTE, TEM PLANTÃO EXTRAORDINÁRIO.

E olha que eu gosto da Gaga!

O problema não é ela.

É a preguiça de olhar para além dos nomes que já garantem audiência.

🍕 A pizza editorial

E tem outra coisa maravilhosa nesse negócio.

A imprensa musical às vezes funciona como uma pizzaria que só vende os sabores que já estão na vitrine.

Você entra querendo descobrir alguma coisa diferente.

O sujeito aponta para o cardápio.

— Temos Metallica.

— Legal. O que mais?

— Iron Maiden.

— Excelente. E alguma banda nova?

— Temos uma matéria sobre os dez discos mais importantes do Metallica.

— Mas eu queria conhecer uma banda que lançou alguma coisa este mês.

— Temos uma análise sobre a importância histórica de Master of Puppets.

— Meu amigo, eu já ouvi esse disco umas quatrocentas vezes!

— Então talvez o senhor goste da nossa promoção: COMPRE DUAS FATIAS DE METALLICA E GANHE UMA CURIOSIDADE SOBRE O NIRVANA!

PUTA MERDA, QUE PIZZARIA DESGRAÇADA! 🍕🙄

E não me entenda mal.

Metallica é gigante.

Iron Maiden é gigante.

Nirvana mudou muita coisa.

Sepultura é uma instituição do metal brasileiro.

A gente ama essas bandas.

Mas será que a música parou de nascer depois delas?

NÃO, DROGA!

Tem gente compondo hoje.

Gravando hoje.

Ensaiando hoje.

Fazendo show hoje.

Em São Paulo.

Em Curitiba.

Em Salvador.

Em Manaus.

Em Lisboa.

Em Londres.

Em Tóquio.

Em Seul.

Em qualquer cidade onde alguém consiga ligar uma guitarra, um teclado, uma bateria eletrônica ou um microfone.

OU ATÉ O FAMOSO FRASCO DE SHAMPOO NA HORA DO BANHO!

Sim, aquele mesmo.

Você entra no banheiro, fecha a porta e pronto.

ALI É SEU PALCO!

SEU REINO ABSOLUTO!

O chuveiro vira iluminação de show.

O espelho vira plateia.

O shampoo vira microfone.

E você, completamente ensaboado, resolve que é o Freddie Mercury cantando para cem mil pessoas em Wembley.

Só que sua plateia real é uma barata escondida atrás do ralo e alguém do lado de fora gritando:

— VAI DEMORAR MUITO AÍ, DESGRAÇADO???

RESPEITA O ARTISTA, DROGA! ESTOU NO REFRÃO! 🎤🚿🤣

E boa parte dessa gente não vai aparecer nos grandes portais porque ainda não tem números suficientes para impressionar uma planilha.

É aí que a coisa fica feia.

Porque, quando a imprensa musical só fala de quem já é famoso, deixa de descobrir música.

Passa a administrar celebridades.

E ISSO É OUTRA PROFISSÃO.

A banda que não cabe no cardápio

Imagine uma banda de garagem chegando a um desses grandes portais.

— Boa tarde. Acabamos de lançar nosso primeiro EP.

— Quantos seguidores?

— Cento e vinte.

— Quantos streams?

— Duzentos e quarenta.

— Quantos integrantes?

— Quatro.

— Quantas matérias internacionais?

— Nenhuma.

— Já tocaram em festival grande?

— Não.

— Já abriram para o Metallica?

— Não.

— Conhecem o produtor da Taylor Swift?

— Não.

— Têm alguma ligação com o BTS?

— Também não.

— Então infelizmente não temos espaço.

MAS QUE MERDA DE CRITÉRIO É ESSE???

O sujeito não perguntou se a música era boa.

Não perguntou de onde veio a banda.

Não perguntou quem escreveu as canções.

Não perguntou se os integrantes têm alguma história interessante.

Não perguntou absolutamente nada sobre música.

Só quis saber se alguém já tinha aprovado aquela banda antes dele.

É o velho sistema de sempre.

Todo mundo quer descobrir a próxima grande banda.

Mas pouca gente quer ser a primeira a prestar atenção nela.

E depois, quando a banda fica famosa, aparecem todos:

“Conheça a trajetória do grupo que conquistou o mundo!”

Conhecer a trajetória agora é fácil, meu amigo.

EU QUERIA VER VOCÊ TER PRESTADO ATENÇÃO QUANDO ELES TOCAVAM PARA TRINTA PESSOAS NUM BAR COM O BANHEIRO ENTUPIDO!

Aí sim.

Aí você estava fazendo jornalismo musical.

Na Passport Radio a coisa funciona do jeito certo

Vou escrever em letras grandes para ninguém fingir que não entendeu.

A PASSPORT RADIO NÃO COBRA UM CENTAVO PARA PUBLICAR ARTISTAS EDITORIALMENTE.

Não existe taxa de audição.

Não existe taxa de curadoria.

Não existe Pix para furar fila.

Não existe pacote editorial premium.

Não existe aquela conversa bonita de:

“Adoramos sua música! Por apenas R$ 450 podemos apresentar sua banda ao nosso público.”

ISSO NÃO É DESCOBERTA MUSICAL. É UM CARDÁPIO COM PREÇO.

Publicidade é publicidade.

Se uma empresa quiser anunciar comercialmente na Passport, existem espaços próprios para isso.

Mas matéria editorial é outra história.

EDITORIAL É EDITORIAL.

E uma banda não precisa comprar o direito de ser ouvida.

— “Pô, Nomad, mas nosso som foi gravado num celular velho e tem um cachorro latindo no refrão…”

MANDA.

— “Nossa guitarra é daquelas bem baratinhas que dão choque se o sujeito tocar descalço…”

MANDA, DROGA!

— “A gente gravou no depósito de bebidas do meu tio, entre uma geladeira pifada e vinte caixas de cerveja vazias…”

MANDA ESSA BOSTA IMEDIATAMENTE!

— “Mas a nossa banda só tem vinte e três seguidores…”

E daí?

— “Desses vinte e três, VINTE SÃO DA MINHA FAMÍLIA!”

Como assim?

— “É UM EMPURRANDO PRO OUTRO! Minha mãe segue, manda pro meu pai, meu pai manda pra minha tia, minha tia manda pro meu avô, meu avô nem sabe abrir o aplicativo, mas segue também!”

KKKKKKKKKKKKKK! 😂

E os outros três?

— “Um é o baterista, outro é a ex-namorada do guitarrista e o terceiro a gente não sabe quem é!”

MARAVILHOSO!

Então agradeça sua família.

Dê um abraço na sua mãe.

Compre umas flores.

E MANDA A MÚSICA!

Seu videoclipe parece que foi gravado numa câmera de segurança de padaria?

MANDA.

Seu primeiro show foi num bar onde o palco era menor que a mesa do garçom?

MANDA.

Sua banda de metal ensaia num galpão emprestado?

MANDA.

Seu projeto de dream pop foi gravado inteiro no quarto?

MANDA.

Você faz K-pop independente sem agência, sem patrocinador e sem um exército de publicitários?

MANDA TAMBÉM.

Seu grupo de punk toca para quarenta pessoas e metade delas trabalha no próprio bar?

MANDA.

Seu único registro ao vivo é um vídeo tremido gravado pelo primo do baterista enquanto alguém no fundo gritava “TOCA RAUL, DESGRAÇA!”?

MANDA TAMBÉM!

Não estamos procurando artistas que já receberam autorização da indústria para existir.

Estamos procurando música.

Histórias.

Gente criando.

Gente tentando.

Gente fazendo alguma coisa interessante.

Porque a Rita Lee também começou em algum lugar.

Milton Nascimento também.

Chrissie Hynde também.

E a lindíssima Paula Toller não nasceu com um contrato de gravadora e um disco de ouro pendurado no berço.

ANTES DA FAMA, EXISTIA A MÚSICA.

É disso que estamos falando.

PASSPORT RADIO · DIVULGUE SUA BANDA

Tem música? Tem história? Manda pra gente.

Não importa se você toca rock, metal, pop, K-pop, MPB, punk, jazz, shoegaze, reggae ou alguma mistura que nem ganhou nome ainda.

Fale com a Passport Radio

Fechando a conta

Olha só onde essa conversa foi parar.

Começamos com Paula Toller.

Passamos por Rita Lee, Milton Nascimento, Lô Borges, Chico Buarque, Genesis e Pretenders.

O Roberto tentou enfiar Nirvana, Metallica, Sepultura e Megadeth na conversa.

O algoritmo pediu BTS, BLACKPINK, Taylor Swift, Lady Gaga e mais uma dúzia de artistas.

A imprensa musical acabou transformada numa pizzaria.

E, no meio dessa bagunça toda, apareceu uma coisa que não deveria ser esquecida:

A MÚSICA SEMPRE COMEÇA COM ALGUÉM.

Alguém que compra um disco.

Alguém que aprende um acorde.

Alguém que escreve uma letra.

Alguém que entra num estúdio pela primeira vez.

Alguém que resolve montar uma banda.

Paula Toller cresceu ouvindo artistas extraordinários e depois se tornou uma artista extraordinária para milhões de pessoas.

E talvez, neste exato momento, exista uma menina ouvindo Paula Toller pela primeira vez.

Talvez ela esteja aprendendo a cantar.

Talvez esteja escrevendo sua primeira música.

Talvez tenha acabado de comprar uma guitarra.

E talvez, daqui a alguns anos, seja ela a artista que outra menina vai ouvir no quarto.

É ASSIM QUE A MÚSICA CONTINUA.

E é por isso que a Passport quer conhecer as bandas que ainda estão começando.

Agora termina sua bebida.

Pega o último pedaço de pizza.

Vai afinar aquela guitarra velha.

E manda o material da sua banda.

Porque, se existe música e uma boa história, a conversa já começou.

Ah, e Roberto…

— Sim, Mr. Nomad?

A CONTA DA PIZZA É SUA, DESGRAÇADO! 🍕🤣

ACERVO PASSPORT RADIO — EDIÇÃO MR. NOMAD

Primeiro a história. Depois a música.