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Nenhum de Nós

E viva o rock nacional: Nenhum de Nós chega aos 40 anos — e ainda tem muita estrada pela frente

De um bar em Porto Alegre para mais de 2.500 shows, Japão, China e quatro décadas de carreira. E sim: no meio dessa história existe até David Bowie descobrindo que o Brasil conhecia “Starman” de outro jeito.

Mr. Nomad

Nenhum de Nós

QUARENTA ANOS.

Não quatro.

Não quatorze.

QUARENTA.

Em outubro de 1986, três amigos subiram ao palco de um bar em Porto Alegre para tocar juntos.

Thedy Corrêa.

Carlos Stein.

Sady Homrich.

Provavelmente ninguém naquela noite olhou para os três e pensou:

“Esses caras estarão fazendo isso em 2026.”

Porque ninguém pensa assim quando uma banda começa.

Primeiro você precisa conseguir o show.

Depois precisa fazer alguém aparecer.

Depois precisa sobreviver ao segundo show.

Depois ao terceiro.

E, quando percebe...

passaram quatro décadas.

Senhoras e senhores:

Nenhum de Nós.

E VIVA O ROCK NACIONAL. 🇧🇷🤘


Nenhum de Nós

NÃO, ELES NÃO ESTÃO FAZENDO FESTA DE DESPEDIDA

Essa é talvez a melhor parte.

Nenhum de Nós chega aos 40 anos trabalhando.

Tem show.

Tem estrada.

Tem agenda.

Tem público.

Em 2026, estão previstas apresentações em cidades como Veranópolis, Campina das Missões, Paranavaí, Lajeado, Santana do Livramento, Porto Alegre, Campo Bom e Rio de Janeiro.

Ou seja:

não é aquela comemoração de aniversário em que todo mundo senta, assiste a um vídeo retrospectivo, corta o bolo e vai embora.

Os caras continuam carregando instrumento.


E AQUELA BANDA DE TRÊS FOI CRESCENDO

A história começou com Thedy, Carlos e Sady.

Em 1989 chegou o guitarrista Veco Marques.

Depois, em 1996, entrou João Vicenti, na gaita e nos teclados.

Nascia ali o quinteto que acompanharia uma parte enorme da trajetória do Nenhum de Nós.

João morreu em 2024.

E aqui cabe apenas:

IN MEMORIAM — JOÃO VICENTI

Depois de sua morte, o Nenhum de Nós voltou à formação de quarteto.

A banda seguiu.

Como bandas com história longa inevitavelmente precisam aprender a fazer.

Porque 40 anos também significam isso.

Gente chegando.

Gente ficando.

Gente partindo.

E músicas permanecendo.


E QUE MÚSICAS, ALIÁS

Tem banda que precisa começar o show e convencer a plateia.

Nenhum de Nós possui um pequeno problema diferente:

basta tocar algumas notas.

“Camila, Camila”.

“Você Vai Lembrar de Mim”.

“Amanhã ou Depois”.

E, claro...

“O ASTRONAUTA DE MÁRMORE”.

Aí alguém levanta a mão:

— Cileide...

🙄

— O quê?

— Essa música não era de outro cara?

Era.

E QUE OUTRO CARA.


DAVID BOWIE.

Sim.

Aquele David Bowie.

😂

Porque “O Astronauta de Mármore” nasceu a partir de:

“STARMAN”

uma das músicas mais conhecidas de David Bowie.

E antes que apareça alguém na porta da redação berrando:

“ROUBARAM O BOWIE!”

Não.

Calma.

A versão brasileira foi oficialmente autorizada.

E a história ainda conseguiu ficar melhor depois.


IMAGINA SER DAVID BOWIE E DESCOBRIR QUE O BRASIL JÁ CANTAVA SUA MÚSICA EM PORTUGUÊS

Quando Bowie veio ao Brasil pela primeira vez, em 1990, aconteceu uma daquelas situações maravilhosas que só música consegue produzir.

O público brasileiro conhecia “Starman”.

Naturalmente.

Só que uma parte daquele público também conhecia a canção por outra porta:

“O Astronauta de Mármore”.

Durante a passagem por São Paulo, no antigo Parque Antártica, Bowie percebeu isso.

E antes de tocar “Starman”, anunciou que faria uma música que o público conhecia em português.

Pensa na volta completa dessa história.

David Bowie grava “Starman”.

Uma banda brasileira transforma a canção em “O Astronauta de Mármore”.

A versão é autorizada.

Vira um dos maiores sucessos do rock nacional.

Bowie vem ao Brasil.

E encontra uma multidão que também conhece sua música através da versão brasileira.

Isso é muito melhor do que qualquer discussão preguiçosa sobre “versão versus original”.

É música viajando, mudando de roupa e voltando para cumprimentar quem a escreveu.


E O ASTRONAUTA FICOU

Para muita gente no Brasil, “O Astronauta de Mármore” não é curiosidade de catálogo.

É Nenhum de Nós.

É rádio.

É adolescência.

É carro.

É festa.

É fita.

É CD.

É alguém cantando:

“Sempre estar lá...”

e imediatamente outra pessoa completando.

A música ganhou vida própria por aqui.

E continua dentro do repertório da banda quatro décadas depois.

🎬 NENHUM DE NÓS — O ASTRONAUTA DE MÁRMORE — A CÉU ABERTO / AO VIVO

Aperta o play.

E depois explica para o cérebro que aquela árvore genealógica começa em David Bowie.

Boa sorte. 😂


AGORA VAMOS FALAR DE “CAMILA, CAMILA”

Porque aqui não existe Bowie.

Não existe adaptação.

Não existe curiosidade divertida.

Existe uma das músicas mais importantes da carreira do Nenhum de Nós.

E uma música que atravessou décadas justamente porque o assunto não ficou preso em 1986.

“Camila, Camila” colocou violência dentro de uma relação amorosa no centro de uma canção de rock brasileiro quando isso estava muito longe de receber a discussão pública que recebe hoje.

E permaneceu.

Infelizmente porque o problema também permaneceu.

É uma música que muita gente conhece desde jovem e, conforme envelhece, passa a perceber de maneira diferente.

Isso também é sinal de uma obra que atravessa tempo.

🎬 NENHUM DE NÓS — CAMILA CAMILA — A CÉU ABERTO / AO VIVO

Duas músicas gigantes.

Por razões completamente diferentes.


17 ÁLBUNS. 2.500 SHOWS. QUATRO DÉCADAS.

A conta da carreira já passou de 17 álbuns lançados e aproximadamente 2.500 apresentações.

E não ficou restrita ao Brasil.

Nenhum de Nós também levou sua música para fora do país.

Inclusive para lugares que talvez ninguém imaginasse naquela primeira noite num bar de Porto Alegre:

Japão.

China.

Pensa nisso.

Você monta uma banda com amigos.

Quarenta anos depois existe alguém do outro lado do planeta esperando você subir ao palco.

Isso não se fabrica numa campanha de marketing.

Isso se constrói.

Show por show.

Disco por disco.

Cidade por cidade.


E O MAIS BONITO É QUE ELES SABEM DISSO

Quando a própria banda olha para os 40 anos, não fala apenas de números.

Fala dos primeiros shows.

Das mudanças.

Das pessoas que fizeram parte da história.

E principalmente do público.

Porque existe uma coisa particularmente estranha e bonita em uma banda durar quatro décadas:

o público começa a trocar de geração sem a música precisar pedir licença.

A pessoa que ouviu Nenhum de Nós nos anos 80 leva alguém.

Essa pessoa descobre a banda.

Depois outra chega pelo streaming.

Outra encontra um vídeo.

Outra ouve no carro dos pais.

E de repente existem pessoas com diferenças enormes de idade cantando o mesmo refrão.

A própria banda resumiu isso muito bem:

continuar subindo ao palco e encontrar diferentes gerações cantando junto ainda emociona.

E, mais importante:

“Ainda temos muita estrada pela frente.”

Essa é a frase.


PORQUE ROCK NACIONAL NÃO É UMA PEÇA DE MUSEU

Existe uma mania meio irritante de falar sobre rock brasileiro sempre no passado.

“Naquela época...”

“Nos anos 80...”

“Quando existiam bandas...”

Calma lá.

A história importa.

Claro que importa.

Só que história não significa embalsamamento.

Nenhum de Nós está completando 40 anos tocando.

Os Paralamas continuam tocando.

Titãs continuam tocando.

Bandas novas continuam aparecendo.

Artistas independentes continuam montando equipamento em bar para tocar para 70 pessoas — exatamente como tanta banda gigantesca começou.

O rock brasileiro não precisa que alguém fique fazendo respiração boca a boca nele a cada seis meses.

Precisa de:

palco.
público.
rádio.
espaço.
curiosidade.

E gente disposta a olhar além dos mesmos cinco nomes de sempre.


E É EXATAMENTE AÍ QUE ENTRA A PASSPORT RADIO

Essa matéria não termina em:

“Parabéns pelos 40 anos.”

Bonitinho.

Agora vamos trabalhar. 😂

Porque a Passport Radio não foi construída para ser uma página em que você lê uma matéria, fecha a aba e desaparece.

Tem rádio tocando.

Aliás:

TEM RÁDIOS.

Várias.

Tem rock.

Tem música brasileira.

Tem décadas diferentes.

Tem estilos diferentes.

Tem portas diferentes dentro da mesma casa.

Você pode terminar esta matéria e continuar ouvindo.

Pode descobrir outra banda.

Pode reencontrar uma música que não escutava há vinte anos.

Pode entrar por Nenhum de Nós e sair duas horas depois ouvindo alguma coisa que nem sabia que existia.

É para isso que a rádio está ali.


E VOCÊ TAMBÉM PODE MEXER NESSA CASA

Não queremos uma Passport Radio engessada em que meia dúzia de pessoas decide tudo atrás de uma porta e o leitor apenas consome.

Isso já existe demais por aí.

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Nós tentamos. 😂

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PORQUE A IDEIA É ESSA

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Rádio levando alguém até uma banda.

Banda levando alguém até uma matéria.

Matéria levando alguém até um vídeo.

Vídeo fazendo alguém procurar outro artista.

Leitor virando colaborador.

Artista independente encontrando público.

Arquivo antigo voltando a circular.

Gente de 20 anos descobrindo uma banda de 40.

Gente de 60 descobrindo uma banda que começou ontem.

Uma coisa puxando a outra.

Sem ficar engessada.

Sem aquela velha mania de decidir que publicação musical precisa morar dentro de uma caixinha e nunca olhar pela janela.

Ontem entrou Alice Cooper.

Hoje estamos comemorando quatro décadas de Nenhum de Nós.

Amanhã?

A porta está aberta.


E pensar que tudo começou em outubro de 1986.

Três amigos.

Um bar.

Uma banda que ainda estava tentando descobrir o que seria.

Quarenta anos depois:

mais de 17 discos.

Mais de 2.500 shows.

Japão.

China.

Brasil inteiro.

João Vicenti fazendo parte para sempre dessa história.

“Camila, Camila”.

“Amanhã ou Depois”.

“Você Vai Lembrar de Mim”.

E um astronauta brasileiro que nasceu de uma estrela de David Bowie e decidiu nunca mais voltar para casa.

VIVA O NENHUM DE NÓS.

E VIVA O ROCK NACIONAL. 🇧🇷🤘🔥