
Kurt Cobain dizia que Paul McCartney lhe dava vergonha — só tem um pequeno problema: ele não conseguia escapar das músicas do Paul
John Lennon era seu Beatle favorito “disparado”. McCartney representava exatamente o tipo de figura que incomodava o líder do Nirvana. Até aí, tudo muito Kurt Cobain. O problema começa quando entram “About a Girl”, uma fita cassete, “And I Love Her” e uma ironia maravilhosa que atravessou décadas
Mr. Nomad
Kurt Cobain · Nirvana · John Lennon · Paul McCartney
Kurt Cobain gostava dos Beatles.
Pronto.
Até aqui nenhuma bomba.
Agora pergunte de qual Beatle ele gostava.
Aí começa a diversão.
Porque Kurt tinha um favorito muito claro:
John Lennon.
E aparentemente também tinha uma opinião bastante clara sobre Paul McCartney.
Não era exatamente:
“Gosto um pouquinho menos.”
🤣
Em uma antiga entrevista, Cobain resumiu a situação dizendo que Lennon era seu Beatle preferido, disparado.
Sobre McCartney?
Dizia que lhe dava vergonha alheia.
Ahhhh, Kurt.
Nunca mude.
Aliás...
não deu tempo.
E essa última frase dói um pouquinho mais do que deveria.
KURT SENDO KURT
Antes mesmo de o Nirvana virar O NIRVANA, Cobain já falava sobre isso.
Em 1989, enquanto a banda promovia Bleach, ele deixou claro que gostava dos Beatles, idolatrava Lennon e tinha uma antipatia especial por McCartney.
Anos depois, já vivendo a loucura que veio depois de Nevermind, voltou ao assunto.
E explicou melhor.
Na visão dele, Paul representava uma figura mais polida, comercial, estável — justamente coisas que batiam de frente com a imagem que Kurt associava ao rock.
Sobre Lennon, a identificação era outra.
Cobain disse que John era seu Beatle favorito “disparado” e acrescentou que Lennon era obviamente perturbado.
Depois veio a parte que explica bastante coisa:
ele conseguia se identificar com isso.
E aí...
bom.
É difícil encontrar uma frase mais Kurt Cobain do que essa.
Porque Kurt nunca pareceu particularmente interessado em transformar seus ídolos em santos.
Talvez justamente o contrário.
O Lennon que interessava a ele não era uma estátua.
Era o sujeito complicado.
Contraditório.
Ferido.
Ácido.
Instável.
Brilhante.
Alguém que podia escrever uma música gigantesca e continuar sendo uma pessoa cheia de problemas quando o microfone desligava.
Isso Kurt entendia.
Talvez até demais.
AGORA VEM A PARTE ENGRAÇADA
Cobain podia reclamar de Paul McCartney o quanto quisesse.
Tinha um problema.
OS BEATLES ESTAVAM DENTRO DELE.
🤣
E isso apareceu muito antes de Nevermind explodir.
Quando o produtor Butch Vig ouviu Bleach, ele próprio contou que o disco não o impressionou tanto de primeira.
Só que uma música chamou sua atenção:
“About a Girl”.
Ali havia outra coisa.
Melodia.
Pop.
Uma capacidade de escrever uma canção que escapava daquela parede mais áspera ao redor dela.
E Vig percebeu uma coisa que hoje parece quase óbvia:
tinha Beatles ali.
Não Beatles como fantasia.
Não Kurt tentando imitar corte de cabelo de 1964.
Beatles entrando na maneira como ele entendia uma canção.
E a origem de “About a Girl” torna isso ainda melhor.
Cobain contou que escreveu a música depois de passar uma tarde ouvindo Meet The Beatles!
Ou seja:
o sujeito que ajudaria a jogar o grunge no meio da cultura popular passou uma tarde mergulhado em Beatles...
e depois escreveu uma das primeiras pistas de que havia muito mais naquele compositor do que Bleach inicialmente deixava aparecer.
E ENTÃO VEIO “NEVERMIND”
Aí acabou a brincadeira.
O Nirvana saiu de uma banda que circulava no underground para uma das maiores bandas do planeta.
E Butch Vig tinha outro problema.
Kurt Cobain.
😂
Porque produtor também precisa negociar.
Vig queria determinadas vozes gravadas em dobro para dar mais corpo às músicas.
Kurt?
Não estava muito interessado.
Então Butch descobriu o botão secreto.
Não era:
“Kurt, tecnicamente seria melhor...”
Não.
Não era:
“Segundo os princípios de produção fonográfica...”
Deus nos livre. 🙄🧱
Era muito mais simples.
JOHN LENNON FAZIA.
🤣🤣🤣
Pronto.
Vig contou que, quando chegou a hora de dobrar os vocais, disse a Kurt que Lennon fazia aquilo.
Ele sabia que Cobain adorava John.
A resposta?
Basicamente:
“Ok, Butch.”
AHAHAHAHAHAHAHA.
É maravilhoso.
Imagine tentar convencer Kurt Cobain de alguma coisa.
Argumento técnico:
❌
Produção:
❌
Mercado:
❌
John Lennon fazia:
✅
Resolvido.
E “ABOUT A GIRL” ACABOU GANHANDO OUTRA VIDA
Anos depois, “About a Girl” estaria em um dos registros mais famosos do Nirvana.
MTV Unplugged in New York.
E aí a história fecha um círculo bonito.
Uma música que carregava aquela influência pop dos Beatles aparecendo num Nirvana completamente exposto, sem a muralha sonora que muita gente usava para definir a banda.
E Kurt ali.
Sem precisar provar que era pesado.
Sem precisar provar que era alternativo.
Sem precisar provar absolutamente nada.
Só a música.
🎬 Nirvana — About A Girl · MTV Unplugged · 1993
E então a história poderia terminar perfeitamente aqui.
Kurt amava Lennon.
Beatles influenciaram sua composição.
Butch Vig usou Lennon para convencê-lo durante Nevermind.
Fim.
Bonita matéria.
Só existe um problema.
PAUL McCARTNEY VOLTOU.
🤣
KURT, TEMOS QUE CONVERSAR SOBRE ESSA VERGONHA ALHEIA AÍ
Porque existe uma ironia espetacular nessa história.
Cobain podia dizer que McCartney lhe dava vergonha.
Podia preferir Lennon.
Podia associar Paul a tudo aquilo que considerava polido demais.
Só que quando aparecem gravações de Kurt cantando Beatles...
olha quem aparece junto.
Paul.
😂
Uma delas vem de quando Kurt tinha apenas dois anos.
Existe um registro familiar dele cantando:
“Hey Jude”.
Sim.
O futuro líder do Nirvana.
Dois anos.
Cantando Beatles.
Antes de Bleach.
Antes de Nevermind.
Antes de Seattle virar palavra obrigatória em qualquer história sobre rock dos anos 1990.
Antes de tudo.
Os Beatles já estavam ali.
E décadas depois da morte de Kurt apareceu algo ainda melhor.
Durante a produção do documentário Kurt Cobain: Montage of Heck, o diretor Brett Morgen encontrou entre as gravações caseiras de Cobain uma versão acústica de:
“And I Love Her”.
Aquela delicada canção dos Beatles fortemente associada à composição de Paul McCartney.
Kurt Cobain.
Sozinho.
Violão.
Cantando Paul.
...
AH, KURT.
🤣🤣🤣
Essa é a parte em que McCartney, metaforicamente, entra na sala, não diz absolutamente nada e apenas senta.
🎬 Kurt Cobain — And I Love Her
E talvez essa gravação seja muito mais interessante justamente porque não transforma a história numa disputa infantil de:
LENNON 1 x 0 McCARTNEY.
Música nunca foi tão simples.
Nem Kurt.
VOCÊ PODE NÃO GOSTAR DO SUJEITO. A CANÇÃO NÃO PRECISA DA SUA AUTORIZAÇÃO.
Essa talvez seja a melhor parte da história toda.
Kurt tinha uma opinião sobre Paul McCartney.
Forte.
Pública.
Tipicamente Kurt.
E mesmo assim uma música ligada a Paul encontrou espaço suficiente dentro dele para acabar numa gravação íntima.
Porque influência não funciona como torcida organizada.
Você pode rejeitar a imagem de um artista.
Pode não gostar da personalidade.
Pode discordar do que ele representa.
Pode até dizer:
“esse cara me dá vergonha.”
E aí...
a música entra pela janela.
😂
Talvez Kurt não estivesse pensando em McCartney quando pegou o violão e cantou “And I Love Her”.
Provavelmente isso é justamente o mais interessante.
Naquele momento não havia Paul McCartney, o Beatle que Kurt criticava.
Havia uma canção.
E ela ficou.
E A IRONIA FICA AINDA MELHOR
Porque poucos dias atrás estávamos aqui falando justamente de Paul McCartney lembrando John Lennon.
Paul disse que John podia ser “um completo idiota” em certas coisas.
E depois explicou.
Falou das dores.
Da infância.
Das perdas.
Da pessoa complicada por trás do mito.
Agora aparece Kurt Cobain décadas antes dizendo:
Lennon era obviamente perturbado. Eu conseguia me identificar com isso.
Olha a ponte se formando.
John Lennon.
Paul McCartney.
Beatles.
Kurt Cobain.
Nirvana.
Butch Vig.
Bleach.
Nevermind.
About a Girl.
And I Love Her.
Uma história abre outra.
Outra abre outra.
É ASSIM QUE UM ARQUIVO DE MÚSICA DEVERIA FUNCIONAR.
Não como um cemitério de páginas que nunca mais conversam entre si.
Como uma teia.
Você entra pelo Nirvana.
Sai nos Beatles.
Volta pelo Lennon.
Tropeça em McCartney.
Encontra Nevermind.
Vai parar no MTV Unplugged.
E daqui a pouco está em outra história completamente diferente.
A música fez isso sozinha durante décadas.
A gente só precisa parar de atrapalhar.
E IMAGINA KURT COBain E NOEL GALLAGHER NA MESMA ÉPOCA DE INTERNET
Não.
Sério.
Pensa cinco segundos.
🤣🤣🤣
Kurt Cobain acorda.
Noel Gallagher acorda.
Alguém coloca um microfone no meio.
ACABOU A PAZ MUNDIAL.
Noel:
hoje vou falar de dez artistas que detesto.
Kurt:
segura minha cerveja.
😂
Um reclamando do outro.
Os dois reclamando de Paul McCartney.
Depois alguém descobriria uma fita dos dois cantando Beatles escondidos.
E na manhã seguinte Noel provavelmente explicaria por que aquilo não contava.
Seria maravilhoso.
E insuportável.
Principalmente maravilhoso.
E OLÁ, GOOGLE. VOCÊ TAMBÉM PODE ENTRAR.
😏
Kurt Cobain.
John Lennon.
Paul McCartney.
Kurt Cobain Beatles.
Kurt Cobain John Lennon.
Kurt Cobain Paul McCartney.
Nirvana Beatles.
About a Girl Beatles.
Kurt Cobain And I Love Her.
Kurt Cobain Beatles cover.
Butch Vig Nevermind.
Nirvana MTV Unplugged.
Bleach.
Nevermind.
John Lennon influência Kurt Cobain.
Pronto.
🍕 pode copiar o caderninho também.
😂
Agora que os robôs terminaram de comer...
voltamos às pessoas.
Porque SEO pode trazer alguém até a porta.
O que faz essa pessoa continuar aqui é a história.
E SE VOCÊ CHEGOU AQUI PORQUE TEM UMA BANDA...
Melhor ainda.
Porque antes de o Nirvana virar NIRVANA, era uma banda.
Antes de Nevermind vender milhões, existiu Bleach.
Antes de arena, capa de revista, documentário e gente discutindo Kurt Cobain décadas depois...
existia músico tentando fazer música.
Então se sua banda ensaia numa garagem:
MANDA.
Na escola?
MANDA.
No quarto?
Manda.
Tem demo gravada de um jeito horroroso?
Manda também.
Tem MP3?
Vídeo de ensaio?
Primeiro show?
Show para 30 pessoas?
Música própria?
Projeto solo?
Banda independente?
Uma gravação que você acha que “ainda não está profissional o suficiente”?
MANDA ESSA DROGA.
Porque existe uma mania muito conveniente de descobrir artista depois que todo mundo já descobriu.
Aí é fácil.
A parte interessante é abrir a porta antes.
E NÃO PRECISA TER BANDA PARA ENTRAR
Tem uma história?
Fotografia?
Entrevista antiga?
Vídeo de show?
Podcast?
Videocast?
Resenha?
Correção?
Descoberta?
Material raro?
Quer escrever?
Quer apresentar um artista?
Quer contar a história daquela banda da sua cidade que ninguém está cobrindo?
A Passport não precisa ser uma pessoa falando sozinha para todo mundo.
A graça começa justamente quando a porta abre dos dois lados.
E TEM OS BEBÊS
Veio pelo Nirvana?
Tem rock.
Veio pelos Beatles?
Continua.
Quer mudar completamente?
Muda.
Tem MPB.
Rock Brasil.
Soul.
Disco.
Reggae.
Anos 80.
50s & 60s.
Hits.
Live & Rare.
E mais um monte de porta aberta nessa casa.
Faz pedido.
Continua lendo.
Vai para os vídeos.
Entra no Arquivo.
Descobre outra coisa.
Bebê que entrou tocando sai tocando.
E SIM: APOIE ESSA DROGA
Porque manter uma casa dessas aberta custa.
Rádio.
Editorial.
Arquivo.
Agenda.
Vídeos.
Podcasts.
Bandas.
Infraestrutura.
Servidor.
Desenvolvimento.
E essa mania absolutamente irresponsável de continuar inventando coisa nova.
😂
Pode ajudar financeiramente?
Ajuda pra cacete.
Escolhe quanto.
Está com:
R$ 0 DISPONÍVEL?
Continua dentro.
Nada muda.
Leia.
Ouça.
Compartilhe.
Faça pedido.
Envie material.
Mostre uma banda.
Escreva uma matéria.
Mande esta história para aquele sujeito que ainda trata Lennon e McCartney como se precisasse escolher um time.
Tudo isso ajuda a casa a continuar crescendo.
E no fim talvez Kurt Cobain tenha deixado, sem querer, uma conclusão maravilhosa.
Ele podia preferir Lennon.
Podia não suportar a imagem que enxergava em McCartney.
Podia dizer que Paul lhe dava vergonha.
Só que música tem essa péssima mania de não obedecer às nossas declarações.
Um dia você fala:
“Não gosto desse cara.”
Décadas depois alguém encontra uma fita.
Coloca para tocar.
E lá está você...
CANTANDO A MÚSICA DELE.
🤣
Kurt sendo Kurt.
Até quando a própria coleção de fitas resolveu contradizer Kurt.
E ainda bem. 🖤🔥