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Paralamas do Sucesso

“Rock de Bermudas”: quando Marcelo Nova resolveu implicar com os Paralamas e o rock carioca

Mr. Nomad

Marcelo Nova · Camisa de Vênus · Paralamas do Sucesso

Anos 80.

O rock brasileiro explodindo.

Bandas surgindo de tudo quanto era lado.

São Paulo fazendo barulho.

Brasília fazendo barulho.

Rio de Janeiro fazendo barulho.

Salvador fazendo...

Bom.

Salvador tinha Marcelo Nova.

E isso significava que, em algum momento, alguém inevitavelmente ia ouvir alguma coisa.

Porque Marcelo Nova nunca pareceu exatamente interessado naquela ideia de:

“Cada banda na sua, somos todos amigos e viva o rock nacional.”

Não.

Se ele enxergasse alguma coisa que achasse ridícula, provavelmente ia falar, seja alguém ir a merda, ou ir para aquele lugar.

E falou.

O alvo daquela vez?

Os Paralamas do Sucesso — e, por tabela, boa parte do rock carioca.

O nome da provocação?

ROCK DE BERMUDAS

É maravilhoso porque você nem precisa explicar muito.

Marcelo olhou para aquela turma.

Bermudas.

Camisetas coloridas.

Bronzeado.

Clima carioca.

E decretou:

“Rock de Bermudas.”

Pronto.

Nascia uma pequena granada verbal para jogar no meio do rock brasileiro.

O termo não era dirigido exclusivamente aos Paralamas. Era uma provocação contra aquela imagem que Marcelo associava às bandas do Rio de Janeiro.

E ele ainda caprichou.

Em 1985, descreveu aquela turma como:

“um pessoal bronzeado jogando beijinho para a plateia.”

HAHAHAHA.

Isso é muito Marcelo Nova.

Não bastava dizer:

“Não gosto dessa estética.”

Tinha que pintar a cena inteira.

Você praticamente consegue enxergar o sujeito olhando para a televisão:

— Olha lá. Bronzeado. Bermuda. Camiseta colorida. Mandando beijinho.

Pausa.

Rock de Bermudas.

E alguém provavelmente deveria ter tirado o microfone da mão dele naquele momento.

Ninguém tirou.

Ainda bem. Afinal, não teria graça de Marcelo Nova não fosse ele mesmo!

E OS PARALAMAS?

Claro que a provocação chegou do outro lado.

Só que os Paralamas resolveram não entrar naquela guerra usando a mesma munição.

João Barone tratou o assunto como uma discussão que já estava ficando velha:

“Esse papo já é muito antiquado.”

E explicou que a banda preferia responder de outra maneira:

“Queremos desbundar no palco, tocando nos shows, afinal, de bunda os palcos estavam lotados.”

Herbert Vianna também rebateu a acusação de alienação.

Para ele, aquilo que os críticos enxergavam como alienação tinha outra coisa no meio:

bom humor.

E talvez aí esteja justamente o que torna essa história tão boa tantos anos depois.

Porque os dois lados estavam fazendo rock.

Só que pareciam estar falando dialetos completamente diferentes da mesma língua.

De um lado, Camisa de Vênus.

Ácido.

Provocador.

Desconfortável.

Marcelo Nova com aquela maravilhosa capacidade de parecer estar a três segundos de arrumar uma discussão que ninguém havia pedido.

Do outro, Paralamas.

Reggae.

Ska.

Rock.

Camiseta.

Bermuda.

Bom humor.

E aparentemente um bronzeado que incomodava profundamente o cidadão baiano.

😂

MAS TEM UM PEQUENO PROBLEMA NESSA HISTÓRIA

Enquanto Marcelo Nova distribuía farpas sobre o tal “Rock de Bermudas”...

os Paralamas estavam crescendo feito mato.

E em 1985 aconteceu uma coisinha chamada Rock in Rio.

Os Paralamas subiram naquele palco.

Herbert Vianna.

Bi Ribeiro.

João Barone.

E tocaram Meu Erro.

Então vamos fazer uma coisa muito mais divertida do que ficar discutindo quem estava certo numa briga de quarenta anos atrás.

Vamos colocar os dois lados no palco.

Primeiro, os cidadãos do “Rock de Bermudas”.

OS PARALAMAS DO SUCESSO — MEU ERRO — ROCK IN RIO, 1985

Olha aquilo.

1985.

A banda voando.

Público respondendo.

E a bermuda?

Não faço ideia.

Mas o rock estava funcionando perfeitamente.

AGORA CHAMA O HOMEM QUE ARRUMOU A CONFUSÃO ELE QUE RESOLVA ISSO!

Porque seria injustiça contar essa história, colocar os Paralamas no palco e deixar Marcelo Nova sentado confortavelmente fora dela.

Não.

Você começou essa bagunça, Marcelo. Agora entra aqui também.

Um ano depois.

1986.

Camisa de Vênus ao vivo.

Eu Não Matei Joana D’Arc / Bete Morreu.

Camisa de Vênus

E aí está o outro lado da história.

Não precisa transformar isso numa tese sobre quem fazia o rock “correto”.

Seria até meio absurdo.

O mais divertido é justamente assistir aos dois.

Os Paralamas fazendo exatamente aquilo que queriam fazer.

Camisa de Vênus fazendo exatamente aquilo que queria fazer.

E Marcelo Nova fazendo aquilo que Marcelo Nova sempre fez muito bem:

cutucando alguém no caminho.

QUARENTA ANOS DEPOIS, “ROCK DE BERMUDAS” AINDA É ENGRAÇADO

Talvez porque seja uma expressão tão besta quanto perfeita.

Você escuta duas palavras e imediatamente entende a provocação.

Rock.

Bermudas.

Acabou.

Não precisava de manifesto.

Não precisava de vinte páginas explicando diferenças culturais entre cenas brasileiras.

Marcelo Nova resolveu tudo com duas palavras e uma imagem mental de músicos bronzeados distribuindo beijinhos para a plateia.

Os Paralamas responderam tocando.

E ninguém morreu.

Melhor ainda:

sobraram as músicas.

Hoje dá para assistir aos Paralamas no Rock in Rio de 1985, depois colocar Camisa de Vênus em 1986 e perceber uma coisa maravilhosa sobre aquele período:

Eles podiam discordar.

Podiam provocar.

Podiam achar o outro lado alienado.

Podiam considerar a discussão antiquada.

Podiam inventar apelido.

Podiam mandar a crítica às favas.

E depois subiam no palco.

Talvez por isso aquelas histórias ainda sejam tão divertidas.

O rock brasileiro dos anos 80 não parecia uma reunião de condomínio tentando aprovar a ata anterior.

Tinha personalidade.

Tinha ego.

Tinha deboche.

Tinha resposta atravessada.

Tinha gente disposta a falar merda e gente igualmente disposta a responder.

E, no meio disso tudo, tinha música boa para o inferno.

Quanto ao “Rock de Bermudas”?

Marcelo Nova conseguiu uma façanha:

inventou uma provocação em 1985 e fez a gente rir dela quatro décadas depois.

Isso também é muito Marcelo Nova.