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Oasis

Liam Gallagher achava “Wonderwall” uma merda. Depois foi lá e cantou mesmo assim

Mr. Nomad

Oasis

Liam Gallagher achava “Wonderwall” uma merda.

Sim.

Wonderwall.

Aquela.

A música que virou praticamente patrimônio imobiliário de qualquer sujeito que aprendeu quatro acordes no violão nos últimos trinta anos.

Aquela que basta alguém começar a tocar e metade da sala já sabe exatamente o que vem depois.

Aquela que ajudou a transformar (What’s the Story) Morning Glory?, de 1995, num daqueles discos que parecem ter decidido simplesmente não envelhecer.

Pois Liam Gallagher ouviu a música quando ela ainda estava sendo construída e chegou a uma conclusão bastante sofisticada:

era uma merda.

E, sinceramente?

É difícil imaginar uma história mais Oasis do que essa.

ANTES DE “WONDERWALL”, EXISTIA UMA PEDRA

A música nem sequer nasceu com esse nome.

Noel Gallagher inicialmente a chamava de “Wishing Stone”.

A inspiração vinha de uma garota que ele conheceu e que carregava consigo uma pedra. Em determinado momento, ela insistiu para que Noel ficasse com aquilo.

Uma pedra.

Porque aparentemente os anos 90 também tinham seus próprios métodos de comunicação.

O nome acabou mudando depois que Noel ouviu Wonderwall Music, álbum de George Harrison.

E assim Wishing Stone virou:

Wonderwall.

O título ficou.

A música começou a tomar forma.

Faltava apenas uma coisa relativamente importante:

convencer o sujeito que precisava cantá-la.

AÍ LIAM OUVIU

Liam escutou a música.

E não ficou exatamente emocionado.

Nada de:

“Noel, isso é lindo.”

Nada de:

“Irmão, acho que temos alguma coisa especial aqui.”

Nada de abraço.

Nada de lágrima.

Nada de momento cinematográfico entre os Gallagher.

Liam achou aquilo uma merda.

Pior:

disse que parecia reggae.

Noel, conhecido mundialmente por sua infinita paciência diplomática com o irmão, respondeu de maneira compatível com décadas de relações internacionais Gallagher.

Mandou Liam ir para a lanchonete enquanto eles terminavam a base.

Pronto.

Problema resolvido à moda Oasis.

PORQUE, CLARO, ESTAMOS FALANDO DOS GALLAGHER

Existe banda em que uma divergência musical provavelmente produziria uma reunião.

O produtor explicaria sua visão.

O vocalista apresentaria suas preocupações.

O compositor falaria sobre a intenção artística.

Todos tomariam café.

Talvez alguém sugerisse testar duas versões.

Oasis não era exatamente essa banda.

Noel escrevia.

Liam falava o que pensava.

Noel falava o que pensava sobre o que Liam pensava.

E, em algum ponto, alguém provavelmente acabava sendo convidado a ir para o inferno, à merda ou para algum outro destino pouco turístico.

Depois eles faziam música.

Às vezes música extraordinária.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com Wonderwall.

Liam inicialmente não queria cantar.

Só que eventualmente cantou.

E aí aconteceu uma coisa ainda mais Gallagher:

depois que ele colocou a voz, a música aparentemente deixou de ser aquela merda toda.

A piada que ficou da história é quase perfeita.

Antes de cantar:

“Que merda é essa?”

Depois de cantar:

“Provavelmente a melhor música já escrita pela humanidade.”

Modéstia nunca foi exatamente um problema naquela família.

E A TAL “MERDA” VIROU WONDERWALL

O resto é uma daquelas ironias que a música adora produzir.

Wonderwall saiu em 1995 no segundo álbum do Oasis, (What’s the Story) Morning Glory?.

E virou uma das músicas definitivas da banda.

Não apenas um sucesso daquele disco.

Não apenas uma música dos anos 90.

Uma daquelas canções que escapam do próprio período.

Gente que nem era nascida quando o Oasis estava no auge sabe cantar.

Gente que nunca comprou um disco da banda sabe cantar.

Gente que provavelmente não saberia diferenciar Noel de Liam numa fotografia sabe exatamente o que fazer quando começa:

Today is gonna be the day...

E em algum lugar dessa história existe o maravilhoso fato de que o homem cuja voz ficou eternamente ligada à música achou aquilo uma merda quando ouviu pela primeira vez.

Música é um negócio engraçado.

NOEL TAMBÉM NÃO ESTAVA ESCREVENDO UMA PROFECIA

Hoje é quase impossível ouvir Wonderwall sem todo o peso que veio depois.

Estádios.

Multidões.

Britpop.

Oasis.

Separação.

Reuniões.

Irmãos brigando.

Irmãos voltando.

Milhões de pessoas cantando o refrão.

Só que músicas não nascem sabendo o que vão virar.

Naquele momento havia Noel trabalhando numa composição, uma referência a George Harrison, uma antiga história envolvendo uma pedra e Liam do outro lado dizendo basicamente:

“Isso está uma merda.”

Ninguém naquela sala tinha como assistir ao futuro.

Talvez seja justamente isso que torna a história tão boa.

Porque hoje qualquer executivo que ouvisse os primeiros acordes de Wonderwall provavelmente entraria na sala carregando gráficos, projeções, campanhas, aniversários de catálogo e uma apresentação de PowerPoint sobre “legado”.

Naquele momento?

O vocalista queria ir embora.

E DEPOIS ELA FICOU GRANDE DEMAIS PARA PERTENCER SÓ AO OASIS

Existe um ponto em que algumas músicas deixam de pertencer completamente ao artista.

O público pega.

Leva para casamento.

Bar.

Festa.

Estádio.

Quarto.

Violão.

Karaokê.

Fim de relacionamento.

Recomeço.

E vai colocando novas histórias em cima.

Wonderwall chegou nesse lugar.

Para Noel, começou como uma composição.

Para Liam, começou aparentemente como uma coisa meio reggae e bastante ruim.

Para milhões de pessoas, virou outra coisa completamente diferente.

E talvez ninguém tenha resumido melhor a capacidade dos Gallagher de tropeçar em alguma coisa gigantesca enquanto discutiam entre si do que essa história.

Um escreveu uma das músicas mais famosas dos anos 90.

O outro disse que era uma merda.

Depois cantou.

E funcionou.

AGORA APERTA O PLAY

Trinta e tantos anos de discussão depois, não faz muito sentido terminar essa história olhando para uma gravação de estúdio.

Wonderwall virou uma música de multidão.

Então é com multidão que ela entra aqui.

Oasis — Wonderwall (LIVE 25)

Liam pode ter achado uma merda.

Noel pode ter mandado o irmão procurar alguma coisa para comer.

O mundo aparentemente discordou dos dois em momentos diferentes.

E talvez essa seja a parte mais Oasis da história inteira:

até quando eles estavam criando uma das músicas mais conhecidas da própria carreira, já estavam encontrando um jeito de discutir sobre ela.