Rio de Janeiro.
5 de setembro de 2026.
Avenged Sevenfold fecha o Palco Mundo.
Um mar de gente vai olhar para M. Shadows. Para Synyster Gates. Para o Deathbat. Para as luzes. Para as guitarras.
Mr. Nomad vai pedir uma coisa diferente.
Procurem alguém que não estará no palco.
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Como uma banda continua quando perde alguém que escrevia de dentro da bateria?
James Owen Sullivan.
Jimmy.
The Rev.
Chamá-lo apenas de baterista já começa errado.
Ele tocava bateria. Cantava. Escrevia. Pensava arranjos. Participava da arquitetura das músicas.
E isso muda tudo.
Porque existe uma diferença entre perder alguém que executa uma parte e perder alguém cuja maneira de pensar já está misturada ao DNA da banda.
Em 28 de dezembro de 2009, The Rev morreu aos 28 anos.
O Avenged Sevenfold não perdeu somente o homem sentado atrás do kit.
Perdeu um amigo de infância.
Perdeu uma voz criativa.
Perdeu uma forma de organizar o caos.
E, por alguns instantes, a pergunta deixou de ser “quem vai tocar bateria?”.
A pergunta era muito maior.
Existe Avenged Sevenfold depois disso?

Primeiro, escute o homem que estamos procurando.
Long Beach.
2008.
Afterlife.
Não olhe apenas para a velocidade.
Escute a maneira como a bateria empurra a música sem transformar tudo em uma corrida. Escute as mudanças de acento. Escute como o kit conversa com as guitarras.
Depois suba para as vozes.
Há M. Shadows no centro.
Há Synyster Gates e Zacky Vengeance criando paredes e respostas.
Há Johnny Christ sustentando a região grave.
E há Jimmy Sullivan fazendo algo que explica por que sua ausência seria tão difícil de preencher:
ele não acompanha a composição. Ele participa dela.
Agora volte alguns segundos.
Esqueça o vocal.
Depois esqueça os solos.
Fique apenas com o chão.
Bateria e baixo.
É ali que Johnny Christ começa a aparecer.
Não como “o outro integrante”.
Como o sujeito que precisa manter o centro de gravidade enquanto duas guitarras têm permissão para voar.
03 · NIGHTMAREEntão entra um dos maiores bateristas do mundo. E mesmo assim a história não é sobre substituir The Rev.
Mike Portnoy.
Dream Theater.
Admirado pelo próprio The Rev.
Quando o Avenged precisava terminar Nightmare, Portnoy entrou para gravar as partes de bateria a partir do material e das ideias que Jimmy havia deixado.
Isso exige uma forma muito particular de grandeza.
Portnoy tinha técnica suficiente para transformar qualquer faixa em demonstração pessoal.
Mas a função ali era outra.
Era entrar numa casa construída por alguém que não poderia voltar e respeitar a planta.
Em julho de 2010, no Heavy MTL, ele subiu ao palco com o Avenged Sevenfold no primeiro show da banda desde a morte de Jimmy.
Escute Nightmare.
Não como disputa.
Não “Portnoy contra The Rev”.
Essa pergunta empobrece os dois.
Escute como um músico enorme aceita carregar uma música que nasceu atravessada pela ausência de outro.
Não é uma substituição. É uma travessia.
04 · BROOKSO Avenged não precisava apenas de alguém que tocasse as músicas.
Depois vieram outras páginas.
Arin Ilejay ocupou o kit por anos e participou de uma fase gigantesca da banda.
Mas quando Brooks Wackerman chegou, em 2015, a questão voltou ao ponto que realmente interessa.
Composição.
Brooks Joseph Wackerman não vinha de uma única escola.
Bad Religion.
Trabalho com Blink-182.
Avril Lavigne.
Punk, rock, sessão, palco, adaptação.
O próprio Brooks fala em aumentar o “vocabulário musical”: estudar estilos diferentes para ter mais possibilidades quando chega a hora de criar.
E aqui está a palavra importante.
Criar.
O Avenged não precisava de um metrônomo humano.
Precisava novamente de um baterista capaz de entrar na sala de composição.
Então veio The Stage.
E a bateria voltou a ser uma das vozes que mudam o rumo da frase.
Escute Brooks sem tentar fazê-lo parecer Jimmy.
Procure independência entre mãos e pés. Procure dinâmica. Procure o momento em que a bateria deixa de marcar a estrada e começa a escolher curvas.
É aí que a história deixa de ser “quem substituiu The Rev?”.
E passa a ser:
como uma banda aprende a continuar sem fingir que nada aconteceu?
05 · DUAS GUITARRAS, DUAS FUNÇÕESSynyster Gates e Zacky Vengeance não estão fazendo a mesma coisa.
Brian Elwin Haner Jr.
Synyster Gates.
Zachary James Baker.
Zacky Vengeance.
Dois nomes de palco enormes.
Duas guitarras.
E uma tentação muito comum: ouvir apenas o solo.
Não faça isso.
Synyster frequentemente ocupa o lugar que chama atenção primeiro: fraseado, velocidade, desenho melódico, tensão, resolução.
Zacky muitas vezes é a estrutura que permite que essa liberdade exista: peso, ataque, acordes, dobramentos, contrapontos.
Quando as duas guitarras se encontram, o truque não é descobrir quem toca mais.
É perceber quando deixam de ser duas.
Volte a Afterlife.
Ouça o que acontece antes e depois do solo.
Uma guitarra abre espaço.
A outra atravessa.
Depois elas voltam a fechar a parede.
Não é duelo. É arquitetura.
06 · DESÇA UM ANDARJohnny Christ está exatamente onde muita gente esquece de procurar.
Jonathan Lewis Seward.
Johnny Christ.
Baixo.
Em uma banda com bateria enorme, duas guitarras extremamente presentes e um vocalista que ocupa o centro do palco, desaparecer seria fácil.
Mas desaparecer e sustentar são coisas diferentes.
O baixo precisa colar peso à bateria sem simplesmente duplicá-la. Precisa dar corpo às guitarras sem disputar a mesma faixa de frequência. Precisa manter a música de pé quando o arranjo abre.
Nômades.
Na próxima vez em que um solo de Synyster puxar seus olhos para cima...
desçam um andar.
Procurem Johnny.
Talvez vocês descubram que a guitarra só consegue voar porque alguém ficou embaixo segurando o chão.
07 · MATTHEW SANDERSM. Shadows também precisou descobrir que identidade não é congelar a própria voz.
Matthew Charles Sanders.
M. Shadows.
A voz do Avenged mudou.
A banda mudou.
O repertório passou do metalcore inicial por discos de heavy metal, hard rock, estruturas progressivas e, mais recentemente, por uma vontade quase deliberada de desmontar expectativas.
Seria muito mais simples passar vinte anos tentando reproduzir a mesma fotografia.
Mas fotografia não envelhece.
Pessoas envelhecem.
Corpos mudam.
Vozes mudam.
Ouvidos mudam.
E talvez uma banda adulta precise escolher entre imitar a própria juventude ou descobrir quem é agora.
08 · LIFE IS BUT A DREAM...E se a identidade do Avenged Sevenfold for justamente não permanecer parado?
Life Is But A Dream... incomodou gente.
Ótimo.
Discos que não incomodam ninguém às vezes também não movem ninguém.
A banda falou abertamente sobre fazer música que representasse quem seus integrantes eram naquele momento, em vez de reconstruir o passado.
Há metal.
Há eletrônica.
Há orquestra.
Há ideias que parecem entrar por portas que um disco de metal supostamente deveria manter fechadas.
E há um detalhe delicioso.
Synyster Gates.
O guitarrista.
O homem que milhões esperam ouvir segurando uma guitarra.
No encerramento do álbum...
senta ao piano.
Talvez seja aí que a resposta comece a aparecer.
Identidade não precisa ser repetir o mesmo som.
Pode ser repetir a mesma coragem.
09 · RIO DE JANEIROAgora volte para 5 de setembro.
O Avenged Sevenfold estará novamente diante da Cidade do Rock.
Em 2024, eles já fecharam uma noite do festival atravessando várias fases da própria história: Afterlife, Bat Country, Nightmare, The Stage, Nobody, Cosmic, A Little Piece of Heaven.
Em 2026, o contexto muda.
Mas o exercício continua válido.
Não conte apenas quantas músicas você conhece.
Não espere apenas o riff que quer filmar.
Escute a bateria.
Separe as guitarras.
Desça para o baixo.
Perceba o que M. Shadows faz com a própria voz.
E em algum momento...
procure Jimmy.
Não como fantasma.
Não como exploração de uma tragédia.
Procure-o nas decisões que ficaram.
Nas músicas que escreveu.
Na ideia de que bateria também compõe.
Na exigência que deixou para quem viesse depois.
Talvez seja por isso que uma banda pode perder uma pessoa insubstituível sem precisar procurar um substituto impossível.
Pode procurar outra pessoa.
Outra voz.
Outra história.
E continuar.
Em 5 de setembro, quando as luzes acenderem e o primeiro impacto atravessar a Cidade do Rock, haverá cinco homens no palco.
Mas a história que os colocou ali é maior do que cinco.
Tire os olhos do Deathbat por alguns minutos.
Escute a banda.
Fontes e contexto
Rock in Rio · line-up oficial e página do Avenged Sevenfold; Avenged Sevenfold · site oficial e entrevistas com M. Shadows, Synyster Gates, Johnny Christ e Brooks Wackerman; registros oficiais de Live in the LBC; cobertura histórica do primeiro show com Mike Portnoy em 2010; cobertura do Rock in Rio 2024.
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