PASSPORT RADIO · MR. NOMAD · MUSIC DNA
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PASSPORT RADIO · DREAM THEATER · 02/09/2026

Dream Theater tem só 11 músicas boas? Regis Tadeu disse isso. Agora tire os olhos da duração e escute a banda.

Um crítico ouviu a discografia e salvou onze. Tudo bem. Gosto não se discute. Mas música se escuta. Então Mr. Nomad propõe outra pergunta: quantos músicos você realmente ouve quando o Dream Theater começa a tocar?

MR. NOMAD · MUSIC DNA2026-09-02

Onze.

Foi esse o número.

Regis Tadeu ouviu em ordem cronológica os quinze álbuns de estúdio do Dream Theater anteriores a Parasomnia e decidiu que apenas onze músicas passavam pelo seu filtro pessoal.

Ele separou técnica de gosto. Reconheceu que os músicos são extraordinários. E disse, em essência, que isso não o obriga a gostar das músicas.

Perfeito.

Mr. Nomad não veio discutir gosto.

Veio discutir outra coisa.

O que exatamente você está ouvindo quando escuta Dream Theater?

Dream Theater
Créditos: Passport Radio
RESPOSTA RÁPIDANão existe número objetivo de “músicas boas” do Dream Theater. A lista de onze é a opinião de Regis Tadeu. O exercício da Passport Radio é outro: usar quatro performances para ouvir como voz, guitarra, baixo, bateria e teclados se relacionam — e como técnica pode servir à emoção, ao espaço, à arquitetura e à própria música.
01 · ONZE

Quais são as 11 músicas do Dream Theater que Regis Tadeu disse gostar?

A seleção começa apenas em Awake, com 6:00 e The Mirror. Em Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory, entram Beyond This Life e Home. Train of Thought fornece As I Am, Honor Thy Father e Stream of Consciousness. De Octavarium, ele escolhe The Root of All Evil e Panic Attack. Finalmente, Systematic Chaos entrega In the Presence of Enemies Pt. 1 e Constant Motion.

Onze.

Nem Another Day.

Nem Breaking All Illusions.

E é aqui que nossa viagem começa.

Não para provar que Regis está errado. Isso seria trocar uma opinião por outra e chamar o resultado de jornalismo.

Vamos fazer algo mais interessante.

Vamos abrir a música.

02 · ANTES DA MATEMÁTICA

Dream Theater é só virtuosismo e música complicada?

John Petrucci pode fazer uma guitarra parecer um instrumento com leis físicas próprias. John Myung consegue trabalhar embaixo de uma composição sem pedir licença para ser notado. Jordan Rudess ocupa frequências, cria atmosfera, dobra linhas, confronta a guitarra e desaparece de novo. Mike Portnoy transforma bateria em composição. James LaBrie precisa encontrar um lugar humano para uma voz dentro dessa arquitetura.

É fácil olhar para tudo isso e resumir: virtuosos.

Mas “virtuoso” descreve capacidade. Não explica intenção.

A pergunta interessante é o que cada um faz com essa capacidade quando a música exige menos, quando exige mais, quando exige silêncio e quando exige que cinco pessoas pareçam um único organismo.

Nômades, hoje não vamos contar notas.

Vamos procurar decisões.

03 · COMFORTABLY NUMB

O que acontece quando Dream Theater e Queensrÿche param de competir antes mesmo de alguém inventar a competição?

2003.

Dream Theater e Queensrÿche dividem uma turnê. Em um dos registros que sobreviveram daquele encontro, as duas bandas sobem juntas para tocar Comfortably Numb, do Pink Floyd.

Então aparece Geoffrey Wayne Tate.

Geoff Tate.

A voz abre a porta.

Depois James LaBrie entra na conversa.

E percebam a palavra.

Conversa.

Não duelo. Não campeonato. Não “quem é o melhor vocalista do metal progressivo?”.

Não me passem essa cédula, Nômades.

Mr. Nomad se recusa a votar.

Seria uma crueldade transformar aquilo numa tabela de pontos.

Há duas bandas no palco. Duas baterias. Dois baixos. Guitarras suficientes para produzir uma guerra de egos. Teclados capazes de ocupar todo o ar da sala.

E justamente por isso o que acontece é tão bonito.

Os acordes de guitarra e as texturas acústicas não estão ali para substituir David Gilmour. Os bateristas não precisam provar quem bate mais forte. Os baixistas não precisam transformar a região grave numa briga por território.

Escutem as baterias.

Procurem os olhares. As respostas. A maneira como uma pulsação aceita a outra.

Agora desçam um andar.

Dois baixos.

Em mãos erradas, seria lama. Aqui existe sustentação, espaço e movimento.

E então chegam as guitarras.

Ah, as guitarras.

Não vamos perguntar quem ganhou o solo.

Escutem a passagem.

Um músico constrói uma frase, leva a tensão até determinado ponto e entrega o espaço ao outro como quem diz:

Segura. Agora é com você.

Isso não é batalha.

É confiança.

Enquanto isso, os teclados constroem a atmosfera atrás de todos. Não imploram atenção. Criam o lugar onde a música consegue existir.

ARQUIVO PASSPORT RADIO · DREAM THEATER + QUEENSRŸCHE · COMFORTABLY NUMB · 2003

Agora fechem os olhos.

Não procurem Dream Theater.

Não procurem Queensrÿche.

E, por alguns minutos, tentem não procurar nem Pink Floyd.

Esqueçam Gilmour, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason como referência de comparação.

Apenas sintam.

Talvez esse seja o maior respeito que músicos desse tamanho podem prestar a uma composição desse tamanho: não imitá-la, não competir com ela, não tentar vencê-la.

Habitá-la.

Até que os nomes desapareçam.

Até que as bandas desapareçam.

Até que vocês estejam completamente...

Comfortably numb.

04 · ANOTHER DAY

Another Day é “só uma balada” do Dream Theater?

Não.

E aqui Mr. Nomad vai baixar a voz.

John Petrucci escreveu Another Day enquanto seu pai lutava contra o câncer. O sentimento central não precisa da reprodução da letra para ser compreendido: é um filho diante da possibilidade de perder o pai cedo demais, desejando mais tempo, mais vida, mais um dia.

Quando você sabe disso, a música muda de temperatura.

Kevin Moore não precisa encher o espaço. John Myung sustenta sem roubar o centro emocional. Mike Portnoy sabe que uma virada espetacular no lugar errado destruiria exatamente aquilo que a composição tenta preservar. Petrucci não precisa vencer a guitarra; precisa fazê-la falar.

E existe Jay Beckenstein, do Spyro Gyra, no saxofone da gravação original.

O sax não funciona como decoração de power ballad.

Funciona como outra voz.

Há coisas que a letra consegue dizer. Há coisas que a harmonia consegue sugerir. E há momentos em que um instrumento precisa carregar o que as palavras já não conseguem.

Agora olhem para James LaBrie.

Não apenas para o cantor.

Para o homem.

Em dezembro de 1994, uma intoxicação alimentar severa provocou hemorragia e lesão em suas cordas vocais. Médicos recomendaram meses sem cantar — e até sem falar. A banda ainda estava crescendo, havia turnê marcada, e LaBrie voltou ao palco. Anos depois, ele descreveu uma recuperação longa, estimando ter recuperado grande parte da extensão, mas não a mesma facilidade de antes.

O James LaBrie que canta Another Day anos depois não é fisiologicamente o mesmo jovem que entrou no estúdio em 1992.

E é justamente aí que muita gente escuta a coisa errada.

Não procurem apenas o agudo.

Não comparem cada segundo com 1992.

Procurem o que permaneceu.

Ele não precisa vencer o James LaBrie do passado.

Precisa contar Another Day com o James LaBrie que existe naquele palco.

E existe uma diferença gigantesca entre alcançar uma nota e alcançar alguém.

ARQUIVO PASSPORT RADIO · DREAM THEATER · ANOTHER DAY · AO VIVO

Assistam uma vez seguindo LaBrie.

Voltem.

Agora procurem Myung.

Outra vez: bateria.

Outra: guitarra e teclados.

Depois parem de separar.

Deixem a música inteira entrar.

Nômades, perceberam?

A potência mudou. A voz atravessou uma história que ninguém escolheria atravessar.

Mesmo assim, existe entrega.

Existe coração.

E sabem o que isso mostra?

Não?

Como não?

MÚSICA SE FAZ COM O CORAÇÃO. NÃO COM A BUNDA REBOLANDO EM CIMA DE UM PALCO.

Técnica importa. Afinação importa. Extensão importa. Precisão importa.

Mas nenhuma delas, sozinha, fabrica verdade.

Talvez Another Day seja uma das onze para você.

Talvez não seja.

Gosto é seu.

Mas chamá-la apenas de “a balada do Dream Theater” é ouvir a superfície e perder a música.

05 · BREAKING ALL ILLUSIONS

Como ouvir Breaking All Illusions sem precisar de uma calculadora?

Sentem, Nômades.

Vamos pedir uma gelada.

Temos algumas questões simples para resolver.

Por que estamos aqui?

Por que existimos?

A teoria da relatividade realmente explica o universo?

Existe vida inteligente fora da Terra?

E, principalmente...

QUEM FOI O CULPADO POR INVENTAR O DREAM THEATER?

Porque alguém precisa assumir a responsabilidade.

Breaking All Illusions, de A Dramatic Turn of Events, pertence à fase com Mike Mangini na bateria. John Myung está ligado à letra, ao lado de John Petrucci e Jordan Rudess nos créditos de composição. E isso já é uma boa pista: a peça pensa movimento, consciência, mudança e retorno enquanto a própria música faz exatamente isso.

Petrucci parece contar uma história com a guitarra.

Rudess aparentemente recebeu uma partitura diferente do restante da humanidade.

Myung trabalha no baixo fazendo coisas que talvez precisem de autorização do Ministério da Ciência.

Mangini discute com o espaço-tempo.

LaBrie precisa descobrir onde existe lugar para uma voz no meio de tudo isso.

E nós?

Nós estamos aqui com a gelada tentando descobrir onde foi parar o compasso.

Relaxa.

Eles sabem.

Nós é que não sabemos.

E talvez seja melhor assim.

ARQUIVO PASSPORT RADIO · DREAM THEATER · BREAKING ALL ILLUSIONS · AO VIVO

Primeira passagem: esqueçam todo mundo e sigam Myung.

Segunda: bateria.

Terceira: Rudess.

Quarta: Petrucci.

Quinta: LaBrie.

Agora voltem e tentem ouvir a relação entre eles.

É aí que “música complicada” deixa de ser descrição suficiente.

Complexidade sem relação seria apenas acúmulo.

A graça está na maneira como uma ideia abre espaço para a seguinte, como uma mudança prepara outra, como o que parece excesso visto de fora pode revelar arquitetura quando ouvido por dentro.

Breaking All Illusions não precisa ser resolvida.

Precisa ser atravessada.

Então guardem a calculadora. Larguem a relatividade. Aumentem o volume.

E quando alguém perguntar “em que compasso eles estão?”, Mr. Nomad recomenda a única resposta cientificamente responsável:

SIM.

06 · OVERTURE 1928 / STRANGE DÉJÀ VU

O que acontece quando o Dream Theater abre a jaula?

Nômades...

Preparem-se.

Overture 1928 não entra.

Ela arromba a porta.

E a bateria de Mike Portnoy parece uma metralhadora disparando para todos os lados.

Só existe um pequeno problema nessa comparação.

A METRALHADORA SABE EXATAMENTE ONDE CADA TIRO PRECISA ACERTAR.

E acerta.

Um por um.

Enquanto você ainda tenta entender o que aconteceu na bateria, Petrucci já passou por você. Myung está trabalhando embaixo de tudo. Rudess preenche espaços que talvez você nem soubesse que existiam.

E quando acha que encontrou um lugar seguro para prestar atenção...

a banda muda tudo.

ATENÇÃO · PERFORMANCE NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 90 ANOS DESACOMPANHADOS DOS AVÓS.

Aqui é coisa de gente grande.

E não adianta explicar tudo com “virtuosismo”, “metal progressivo” e “música complexa”. Isso seria desistir antes de começar.

Então façam diferente.

Não tentem acompanhar todo mundo.

Vocês vão perder.

Escolham um.

Portnoy.

Depois Myung.

Rudess.

Petrucci.

E quando Strange Déjà Vu chegar e LaBrie entrar, voltem ao início.

Mas dessa vez não procurem ninguém.

Juntem tudo.

O registro de Paris documenta uma coisa adicional: Portnoy está novamente dentro do Dream Theater. O baterista fundador retornou à banda, e a turnê de 40 anos transformou repertório antigo em reencontro presente.

ARQUIVO PASSPORT RADIO · DREAM THEATER · OVERTURE 1928 / STRANGE DÉJÀ VU · QUARANTIÈME LIVE À PARIS

A aparente insanidade revela uma coisa extraordinária.

Não existe caos ali.

Existe precisão disfarçada de caos.

A bateria dispara. A guitarra responde. O baixo conecta. Os teclados ampliam. A voz transforma arquitetura em história.

E a máquina continua andando.

Nômades...

Neste momento já não estamos tentando decidir se o Dream Theater tem onze músicas boas.

Temos problemas maiores.

ESTAMOS TENTANDO SOBREVIVER A UMA SÓ.

07 · CINCO NOMES, UMA BANDA

Quem faz o Dream Theater soar como Dream Theater?

John Peter Petrucci não é apenas “o guitarrista rápido”. Sua função muda de compositor de riffs para arquiteto harmônico, solista, criador de textura e contador de histórias.

John Ro Myung não é apenas o sujeito silencioso com o baixo. Muitas vezes é a ponte entre o que a bateria organiza e o que guitarra e teclados expandem. Quando você passa uma audição inteira sem procurá-lo, perde parte do mecanismo.

Michael Stephen Portnoy não é apenas força e velocidade. Bateria, para ele, também é dramaturgia: acentos, entradas, cortes, antecipações e a capacidade de dizer ao ouvinte que uma porta vai abrir antes que ela abra.

Jordan Charles Rudess não está ali para colocar “tecladinho” atrás da guitarra. Piano, sintetizadores, timbres e linhas podem funcionar como ambiente, contraponto, colisão e costura.

Kevin James LaBrie — James LaBrie — carrega uma tarefa particularmente ingrata: transformar estruturas instrumentais enormes em narrativa humana. E sua própria história vocal tornou essa tarefa ainda mais visível.

Em fases diferentes, Kevin Moore, Derek Sherinian e Mike Mangini também mudaram a química da banda. Dream Theater não é uma fotografia congelada. É uma história de formações, escolhas e relações musicais.

08 · ENTÃO, REGIS ESTÁ ERRADO?

Regis Tadeu está errado ao dizer que só gosta de 11 músicas do Dream Theater?

Não.

Porque ele não pode estar errado sobre o próprio gosto.

E você também não.

Se depois desta matéria você continuar achando Dream Theater insuportável, está tudo certo.

Mas existe uma diferença entre não gostar e não ouvir.

É essa diferença que interessa à Passport Radio.

Talvez você odeie Another Day e, ainda assim, perceba o espaço que Portnoy deixa.

Talvez não queira ouvir quinze minutos de Breaking All Illusions novamente, mas finalmente encontre Myung lá embaixo.

Talvez prefira Pink Floyd à versão de Comfortably Numb e, mesmo assim, reconheça o extraordinário diálogo entre duas bandas que poderiam ter transformado o palco em competição.

Talvez Overture 1928 continue parecendo insanidade.

Ótimo.

Agora você sabe que os tiros acertam algum lugar.

09 · O EXPERIMENTO

Como começar a ouvir Dream Theater de outro jeito?

Volte aos quatro vídeos.

Não como playlist.

Como quatro perguntas.

Comfortably Numb: o que acontece quando virtuosos servem a uma música que não foi criada para exibir a técnica deles?

Another Day: o que sobra quando potência, extensão e juventude deixam de ser o centro e o coração precisa carregar a música?

Breaking All Illusions: quantas relações existem dentro de uma composição antes de você chamá-la simplesmente de complicada?

Overture 1928 / Strange Déjà Vu: quando cinco músicos deixam de parecer cinco músicos e viram uma máquina?

Primeiro separe.

Depois identifique.

Depois procure o que cada um faz.

E finalmente faça a coisa mais importante.

Reúna tudo outra vez.

10 · A PERGUNTA ERRADA

Quantas músicas boas o Dream Theater realmente tem?

Onze?

Cinquenta?

Cento e onze?

Nenhuma?

Todas?

Essa resposta pertence a você.

Mas talvez a pergunta tenha nos distraído desde o começo.

A pergunta interessante não é quantas músicas boas o Dream Theater tem.

É: o que você está ouvindo quando escuta Dream Theater?

Nômades...

Na primeira vez, procurem a guitarra.

Depois o baixo.

Depois a bateria.

Depois os teclados.

Depois a voz.

E então...

parem de procurar músicos.

Escutem o Dream Theater.

Talvez continuem odiando.

Talvez descubram uma décima segunda música.

Talvez apenas peçam outra gelada e voltem à teoria da relatividade.

Está tudo certo.

Porque música não precisa vencer uma discussão.

Precisa acontecer dentro de alguém.

Mr. Nomad

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