PASSPORT RADIO · MR. NOMAD · ALABAMA SHAKES
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MR. NOMAD · ROCK · 30/08/2026

Por que Alabama Shakes parou por 11 anos — e como a banda voltou em 2026

Não houve uma grande explosão. Houve silêncio. E o caminho de volta começou num lugar muito menor do que os palcos que a banda havia aprendido a lotar.

MR. NOMAD · PASSPORT RADIO30 AGOSTO 2026

Onze anos é tempo suficiente para uma banda virar lembrança. O Alabama Shakes resolveu fazer outra coisa: voltou.

Mas espere.

Porque “voltou” é uma palavra pequena demais para explicar o que aconteceu.

Não houve anúncio cinematográfico. Não houve relógio em contagem regressiva. Não houve aquela fotografia cuidadosamente calculada de quatro pessoas numa sala tentando convencer o mundo de que nunca haviam se afastado.

Houve um convite.

Uma cervejaria em Tuscaloosa.

Uma despensa comunitária.

E três pessoas que decidiram tocar juntas outra vez.

Brittany Howard e Zac Cockrell, do Alabama Shakes
Alabama Shakes · Créditos: Passport Radio
RESPOSTA RÁPIDAAlabama Shakes não anunciou uma separação formal. Depois de Sound & Color, de 2015, os integrantes reduziram as atividades e seguiram caminhos pessoais e musicais diferentes. O reencontro começou no fim de 2024, quando Brittany Howard chamou Heath Fogg e Zac Cockrell para uma apresentação beneficente em Tuscaloosa. O que deveria ser apenas um show cresceu até virar I Must Be Dreaming, lançado em 2026.
01 · A PERGUNTA

Por que Alabama Shakes parou?

Talvez a primeira coisa seja corrigir a pergunta.

O Alabama Shakes não terminou com uma porta batendo.

Não existe aqui a cena clássica do rock: dois músicos que não conseguem mais dividir o camarim, empresário correndo pelo corredor, comunicado de três parágrafos e fãs escolhendo lados.

Depois de Sound & Color, lançado em 2015, a banda simplesmente começou a desacelerar. Brittany Howard explicaria mais tarde que era hora de fazer uma pausa e proteger aquilo que eles gostavam de fazer juntos. Nem tudo precisava ser uma corrida para transformar música em uma máquina cada vez maior.

Leia isso novamente.

Porque talvez seja justamente aí que o Alabama Shakes tenha feito uma coisa rara.

Parou antes de aprender a se odiar.

02 · ANTES DO SILÊNCIO

Quem eram os integrantes do Alabama Shakes?

Volte para Athens, Alabama, em 2009.

Brittany Howard — voz e guitarra. Heath Fogg — guitarra. Zac Cockrell — baixo. Steve Johnson — bateria. Ben Tanner apareceria nos teclados e ajudaria a ampliar a arquitetura sonora ao vivo e em estúdio.

Não parecia uma banda construída em laboratório para ocupar festivais.

E talvez por isso funcionasse.

Em 2012 chegou Boys & Girls. Dentro dele havia uma música que parecia saber alguma coisa antes de todo mundo.

Hold On.

Uma guitarra abre espaço. A bateria não corre. O baixo segura o chão. E então Brittany Howard entra.

Não escute apenas a voz.

Escute a banda esperando por ela.

ARQUIVO PASSPORT RADIO · AO VIVO

Alabama Shakes — “Hold On” · Live From The Shoals · 21/08/2011.

Isso foi antes de o mundo saber exatamente quem eles eram.

Talvez seja por isso que o vídeo importa.

Não para decorar esta matéria.

Para responder uma pergunta: o que havia nessa banda que fez tanta gente prestar atenção?

A resposta está ali. Espaço. Tensão. Soul. Rock. Uma vocalista que não parecia interpretar a música — parecia atravessá-la.

03 · O ÁLBUM QUE MUDOU TUDO

Por que Sound & Color foi tão importante?

O caminho fácil teria sido fazer Boys & Girls outra vez.

O Alabama Shakes recusou.

Sound & Color chegou em 2015 mais estranho, mais atmosférico e menos interessado em caber na definição confortável de “revival soul”. O disco estreou no primeiro lugar da Billboard 200 e venceu o Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa. Don’t Wanna Fight levou os Grammys de Melhor Canção de Rock e Melhor Performance de Rock.

A banda havia conseguido a parte difícil.

Sucesso.

E então fez a parte ainda mais difícil.

Parou.

04 · O QUE ACONTECEU COM BRITTANY HOWARD?

A pausa não significou desaparecimento.

Brittany Howard seguiu em frente como artista solo. Gravou discos, experimentou outras linguagens e passou a existir fora da moldura do Alabama Shakes.

Heath Fogg também trabalhou em música fora do grupo. Zac Cockrell seguiu sua vida longe da obrigação de alimentar permanentemente uma banda que já havia se tornado grande.

E Steve Johnson deixou de fazer parte da formação que retornaria.

Esse detalhe importa porque o Alabama Shakes de 2026 não tenta fingir que 11 anos não passaram.

Passaram.

Pessoas mudaram.

A banda também.

05 · TUSCALOOSA

Como Alabama Shakes voltou?

Agora chegamos à parte improvável.

Bo Hicks, cofundador da Druid City Brewing Company, em Tuscaloosa, entrou em contato com Brittany Howard. A ideia era simples: ela poderia tocar e ajudar a cervejaria e uma despensa comunitária local.

Howard conhecia Hicks havia muito tempo. Antes dos Grammys. Antes das grandes turnês. Antes de o nome Alabama Shakes significar alguma coisa fora do Alabama.

Então ela telefonou para Heath Fogg.

Telefonou para Zac Cockrell.

Vamos tocar?

Eles ensaiaram.

Tocaram.

Gostaram.

E aí aconteceu aquela coisa perigosa que músicos reconhecem imediatamente.

Uma música puxou outra.

Uma ideia pediu mais dez minutos.

Dez minutos viraram uma sessão.

A sessão virou novas canções.

E o que deveria ser uma noite começou a parecer uma banda outra vez.

06 · A FORMAÇÃO DE 2026

Quem está no Alabama Shakes hoje?

No centro da nova fase estão Brittany Howard, voz e guitarra; Heath Fogg, guitarra; e Zac Cockrell, baixo. O tecladista Paul Horton passou a integrar a sonoridade dessa retomada.

Steve Johnson, baterista da fase clássica, não retornou com o núcleo que gravou o novo trabalho.

Isso muda alguma coisa?

Claro que muda.

Uma banda não é um logotipo. Troque uma pessoa e a conversa musical muda junto.

A pergunta interessante, portanto, não é se o Alabama Shakes de 2026 consegue reproduzir o Alabama Shakes de 2012.

É por que deveria tentar.

07 · I MUST BE DREAMING

Qual é o novo álbum do Alabama Shakes?

I Must Be Dreaming chegou em 28 de agosto de 2026, primeiro álbum de estúdio do grupo em 11 anos.

São onze faixas. Produção da própria banda ao lado de Shawn Everett. Gravações em Nashville, nos estúdios Sound Emporium e Blackbird.

E a paleta cresceu.

Flauta. Cravo. Cítara. Camadas vocais. Soul psicodélico. Rock. R&B. Coisas que não parecem particularmente preocupadas em preencher uma ficha de gênero.

O título também carrega duas possibilidades.

O mundo está tão estranho que isto só pode ser um sonho.

O mundo ainda consegue ser tão bonito que isto só pode ser um sonho.

As duas coisas ao mesmo tempo.

Talvez essa contradição explique melhor o novo Alabama Shakes do que qualquer etiqueta.

08 · A RESPOSTA

Então por que eles demoraram 11 anos?

Porque não havia obrigação de voltar.

E isso muda tudo.

O Alabama Shakes não precisou fabricar uma reunião para vender a memória de Hold On. O reencontro aconteceu primeiro. O disco veio depois.

É a ordem inversa daquela que costuma transformar reuniões de bandas em departamentos de marketing.

Primeiro eles descobriram que ainda gostavam de tocar juntos.

Depois descobriram que ainda tinham alguma coisa para dizer.

Só então apareceu um álbum.

PASSPORT RADIO · MR. NOMAD

Onze anos atrás, o Alabama Shakes poderia ter continuado simplesmente porque o mundo queria mais. Não continuou. Em 2026, voltou por uma razão muito mais interessante: três músicos entraram numa sala e perceberam que ainda existia alguma coisa ali que nenhuma carreira separada conseguia reproduzir. Talvez uma banda não volte quando sobe novamente ao palco. Talvez volte no instante em que alguém toca a primeira nota e os outros dois sabem exatamente onde entrar.