Gusttavo Lima desafia as fronteiras do sertanejo ao dominar o virtuosismo de Steve Vai. A performance coloca uma questão essencial: o grande artista existe dentro ou além do rótulo?
01 · A guitarra não conhece gêneroA guitarra não conhece gênero
Não existe contrato que amarre a destreza técnica a um único som. Gusttavo Lima postou recentemente um vídeo em seu Instagram tocando 'For the Love of God', o clássico instrumental de Steve Vai que definiu gerações de guitarristas. O sertanejo estava em ensaios para sua próxima turnê e entre compromissos da Festa de Peão de Barretos quando decidiu ocupar-se da tarefa. Na legenda, honestidade performática: 'Meus dedos enferrujados… I'm sorry, my idol!'
A humildade é sinal de quem sabe o que está tentando. Vai é virtuose entre virtuoses, inventor de linguagem guitarra que exigiu décadas de refinação. Lima não fingiu completude. E justamente por isso, a execução ganhou credibilidade. Guitarristas brasileiros de alcance reconheceram o feito sem hesitação. Kiko Loureiro, que circunscreveu sua carreira entre Angra e Megadeth, parabenizou publicamente e pediu mais guitarra. Maurício Alabama, que detém audiência considerável no YouTube, chamou a performance de sensacional.
02 · Heresia de gênero com equipamento apropriadoHeresia de gênero com equipamento apropriado
Lima executou seu virtuosismo na Ibanez JEMJR, modelo que é assinatura de ninguém menos que Steve Vai. O instrumento não foi acaso. Ele estava sintonizado com a reverência genuína que a performance exigiu. Não é seu primeiro diálogo com o rock de elite. Em 2015, no Festival Planeta Atlântida, Lima começou 'Sweet Child O' Mine', dos Guns N' Roses, antes de fazer transição para seu repertório. Em abril deste ano, na ExpoLondrina, retornou à mesma faixa com versão mais expandida, desta vez dividindo vocais com um de seus cantores de apoio enquanto sustentava a guitarra.
Existe um padrão aqui que transcende nostalgia ou flerte superficial. Lima não toca clássicos de rock para parecer maior que si mesmo. Parece fazê-lo porque precisa honrar uma linguagem que, em sua origem virtuosa, não pertence exclusivamente a gênero algum. A guitarra é ferramenta, o rock é idioma. Mas ambos são, fundamentalmente, linguagem aberta. Ele reconhece isso cada vez que sua mão toca as cordas.
Quando a técnica fala, o rótulo fica em silêncio.
PASSPORT RADIO