A primeira biografia musical de Gilberto Gil chega ao Teatro Santander com direção de Miguel Falabella e traz 84 anos de trajetória destituídos de cronologia. Memória em movimento.
01 · Por que importaPor que importa
Há momentos em que a arte brasileira se recompõe diante de si mesma. Quando uma figura como Gilberto Gil autoriza contar sua própria vida em palco — aos 84 anos, presente à estreia na segunda-feira — há mais em jogo do que récita de feitos. Há um ato de dignidade. Afinal, não é simples transformar uma trajetória marcada por exílio, resistência e transformação espiritual numa experiência pública que não falseia nem simplifica.
"Gil, Andar com Fé", que segue no Teatro Santander até 29 de novembro, consegue fazer isso. Não porque invoca o mito — já há biblioteca disso. Mas porque recusa a ordem dos relógios. Aqui, a memória não caminha em linha reta. Ela pulsa.
02 · Fora do tempo linearFora do tempo linear
A montagem, sob direção de Miguel Falabella com texto de Newton Moreno, organiza-se a partir de um ponto de fuga: o exílio em Londres, 1969. Dali, ramificam-se 34 artistas e o ator Gui Ventura, que encarna Gil em cena. A narrativa passeia pela infância em Ituaçu, pela efervescência da Tropicália, pela dor imposta pela ditadura, pelo reencontro visceral com a negritude através daquela imersão em Lagos em 1977, e pelo retorno ao Brasil. Tudo simultâneo, como quem toca vários instrumentos na mesma respiração.
A cenografia é acusação em cores: resgata o vanguardismo dos anos 1950 e marca aquela transformação africana que ressignificou não só o trabalho de Gil, mas a compreensão dele sobre favela, potência e protagonismo negro. Há um foco delicado entre Gui Ventura e Luci Saluzzi, que interpreta Preta Gil com a leveza que a cena exige. Ali, afeto vira metáfora. Ali, silêncio pesa.
Estar na sala é flutuar numa conversa profunda com alguém que pisou na terra de forma rara. O espetáculo não quer heroísmo. Quer verdade. E faz com a limpeza de quem sabe que tempo é um velho conhecido — e que hoje é hora de virar amigo.
03 · A urgência de se contarA urgência de se contar
Quando a arte brasileira ocupa os grandes palcos com rigor estético e memória viva — sem medo de contradições, sem apaziguamento — ela devolve ao público algo que estava em falta: a dignidade de sua própria identidade. "Gil, Andar com Fé" reafirma que história não é consumo turístico. É ato de urgência. É afeto transformado em moeda.
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