Banda de Melbourne transforma solidariedade emocional em post-punk urgente. Annaliese Redlich sai do isolamento criativo e leva 'IOU' por 26 cidades europeias em turnê que é, em si, um ato de fé.
01 · O Negócio da SobrevivênciaO Negócio da Sobrevivência
Não é comum que o punk dance nos sapatos da psicologia relacional. 'IOU' não é uma canção de raiva direta nem de renúncia romântica. É mais duro que isso: é uma música sobre estar em débito emocional com as pessoas que não fugiram quando você estava quebrado. Quando você estava furioso. Quando você era, literalmente, espiritualmente falido. Lothario, banda de Melbourne, transformou essa topografia de amizade sobrevivente em post-punk urgente, guitarra aguda e motor de batida que lembra a melhor tradição pós-punk europeia sem nunca deixar de soar australiano.
O single que inaugura o EP homônimo carrega tensão. Há fogo e há precisão. Os acordes cortam com a clareza de quem sabe exatamente o que vai destruir. E ainda assim, a canção não é destrutiva: é uma promessa entre pessoas que se viram desnudas uma para a outra. Annaliese Redlich, que criou e lidera Lothario, canta sobre gratidão como se fosse uma arma. Porque, para o punk verdadeiro, é.
02 · Do Quarto para a LiderançaDo Quarto para a Liderança
Redlich passou anos fazendo Lothario sozinha. Era meditação privada. Era a liberação sem mediação de tudo que se acumula — raiva, questões, comprometimento criativo que acumula sem escape. Esse isolamento produziu algo real: material nascido da urgência pura, gravado nos confins onde ninguém olha e ninguém julga. Mas isolamento também é uma forma de paciência. Redlich sabia que quando chegasse a hora de trazer outras pessoas, precisava de colaboradores que compreendessem o projeto não como salvação dele, mas como expansão deliberada.
Elsa Birrel, Beth Lockhart e Will Clifford entraram no processo. O irmão de Redlich, Matt, gravou as sessões. Não é uma mudança cosmeticamente colaborativa: é arquitetônica. Quando uma artista sai do seu próprio quarto e convida pessoas para participar da criação, ela também convida responsabilidade. E é isso que 'IOU' demanda: responsabilidade coletiva. A canção deixa claro que ninguém sobrevive isoladamente, mas também que há uma diferença entre ser resgatado e ser lembrado.
03 · O Vídeo Como TestamentoO Vídeo Como Testamento
Maria Cecelia Tedemalm dirigiu o vídeo de 'IOU' como se estivesse fotografando a traseira do rock and roll. A imagem é em preto e branco. Uma mulher dirige pela cidade colhendo passageiros. Não é salvação convencional: é ministério. É aquela pessoa que conhece todas as ruas erradas, que nunca fecha a porta do carro, que tem sempre mais um lugar no banco de trás para quem não deveria estar ali.
A estética recupera uma lógica de 1970: contraste alto, formato de filme de rock que ninguém mais faz. Há aqui o espírito daquelas fotografias tiradas fora do CBGB, quando ninguém sabia que os rostos que passavam se tornariam histórias. Tedemalm compreendeu o DNA de 'IOU' visualmente: é gospel de garagem, guitarra como púlpito, anarquia que se move nos tanques de gasolina. O vídeo confirma o que a música já disse: você não sobrevive sozinho, mas também não é apenas um passageiro.
04 · Punk e Débito EmocionalPunk e Débito Emocional
O punk sempre foi sobre sobrevivência. Mas frequentemente com a elegância emocional de um tijolo através de uma vidraria. 'IOU' sofistica essa lógica. Há brutalidade, sim. Há urgência guitarrística e uma batida que empurra sem pausa. Mas o motor da canção é mais nuançado: é a gratidão em sua forma mais rasgada, a promessa de quem faz um voto porque não há outra saída que não seja a mentira.
Redlich disse do single: 'É uma canção de amor comigo mesma e com as pessoas que permaneceram.' Isso é completamente punk, na verdade. Amor que começa interno e se alarga sem vergonha. Otimismo desbocado depois de rolar na lama. Antigo. 'IOU' é o hino do amanhecer de um novo dia quando você prometeu a si mesmo não fechar a porta da frente novamente. E isso, em 2026, em qualquer lugar, é um ato de revolução.
05 · 26 Datas, 10 Países, Uma Conversa26 Datas, 10 Países, Uma Conversa
Lothario leva 'IOU' para a Europa em turnê que começa 13 de setembro em Leffinge, Bélgica. Vinte e seis datas. Dez países. Encerra 10 de outubro em Benidorm, Espanha. Há poesia no roteiro: é um trajeto que parece menos turismo e mais peregrinação de quem realmente acredita no que canta.
A banda Useless Eaters se junta a partir de Viena, 24 de setembro. O itinerário passa por Benelux, Alemanha, República Checa, Áustria, Itália, Suíça, França, Espanha. Cada cidade é um espaço de diálogo renovado com pessoas que entendem que o rock'n'roll ainda é capaz de fazer promessas. A turnê não é apresentação de hits: é continuação prática da filosofia de 'IOU'. É levar para a rua aquilo que Redlich construiu em solidariedade.
06 · Por Que Lothario Importa AgoraPor Que Lothario Importa Agora
Quando a maioria do punk contemporâneo se recusa a falar de sentimento, preferindo ironia e distância, Lothario avança na direção oposta. Fala de amizade que sobreviveu dano suficiente para se tornar religião privada. Fala de favores lembrados, feridas perdoadas, da descoberta de que alguém apareceu quando todos desapareceram.
Isso é radicalmente urgente em 2026. Essa é a razão pela qual 'IOU' reverbera: porque diz que existem razões reais para continuar, e essas razões têm nome. Têm rosto. São aquelas pessoas que você vê quando abre a porta. Lothario não promete salvação transcendental. Promete algo mais real: que você não está sozinho no seu isolamento, e que gratidão é um verbo, não uma emoção.
Lothario toca para quem ficou. Para quem volta. Para quem sabe que sobrevivência é sempre um ato coletivo, mesmo que o quarto em que você criar seja só seu. Acompanhe a turnê europeia e ouça 'IOU' em suas plataformas habituais. A Passport Radio está aqui quando o rock fala verdade.
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