Meus caros Nômades, apertem os cintos. Antes de alguém dizer que rock é apenas guitarra alta, cabelo comprido e um vizinho batendo na parede, convém lembrar: rock é também linguagem, postura, roupa, poesia, teatro, ruído, silêncio, rebeldia e, em certas noites, uma espécie de religião sem templo.
Ele começou a ganhar forma no final dos anos 1940 e explodiu nos anos 1950, alimentado por rhythm and blues, country, gospel, jazz e pela eletricidade de uma juventude que queria ouvir algo que os pais não entendessem. A guitarra virou o grande símbolo, mas não viajou sozinha: baixo, bateria, piano, órgão, sintetizadores, sitar, sopros e até orquestras passaram pelo mesmo portão de embarque.
Uma guitarra, alguns segundos e a velha pergunta: até onde esse som pode nos levar?
01. Rockabilly
Antes das arenas, havia o sol quente do Sul dos Estados Unidos, os estúdios pequenos, o contrabaixo acústico estalando e uma guitarra que parecia correr pela estrada. O rockabilly juntou o “hillbilly” do country ao rhythm and blues negro e colocou juventude, velocidade e brilhantina no mesmo automóvel.
Elvis Aaron Presley · voz e guitarra
John R. Cash · voz e guitarra
Charles Hardin “Buddy” Holley · voz e guitarra
Carl Perkins escreveu hinos; Elvis Presley transformou presença de palco em terremoto cultural; Johnny Cash levou a sombra e a narrativa para dentro do gênero; Buddy Holly mostrou que um jovem de óculos podia compor, tocar e liderar a própria banda. Foi a primeira grande pista de decolagem.
02. Garage rock
O nome diz tudo: garagem, amplificador barato, três ou quatro acordes e nenhuma autorização formal para fazer barulho. The Sonics, liderados pela voz feroz de Larry Alvin Parypa e pela guitarra de Lawrence “Larry” Parypa, e The Standells, com Larry Tamblyn nos teclados e voz, ajudaram a preparar o terreno para o punk.
E então surgem The Troggs. Reginald Maurice Ball — Reg Presley — na voz; Christopher Britton na guitarra; Peter Staples no baixo; Ronnie Bond na bateria. “Wild Thing” não pede licença. Ela entra, derruba a porta e deixa o refrão no chão da sala.
The Troggs — “Wild Thing”. O luxo aqui é justamente não polir demais.
03. Rock psicodélico
Na segunda metade dos anos 1960, o estúdio deixou de ser apenas um lugar para registrar uma banda e virou instrumento. Pedais, fitas invertidas, órgãos, sitares, tablas e ecos começaram a construir paisagens mentais.
The Doors reunia James Douglas Morrison — Jim Morrison — na voz, Raymond Daniel Manzarek Jr. — Ray Manzarek — nos teclados, Robert Alan Krieger — Robby Krieger — na guitarra e John Paul Densmore na bateria. Jimi Hendrix, nascido Johnny Allen Hendrix e depois registrado James Marshall Hendrix, redesenhou a guitarra elétrica. Grateful Dead transformou improvisação em estrada infinita.
E os Beatles? John Winston Ono Lennon na voz e guitarra; Sir James Paul McCartney na voz, baixo e inúmeros instrumentos; George Harrison na guitarra, sitar e voz; Richard Starkey — Ringo Starr — na bateria. Em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, eles provaram que um álbum podia ser um universo completo.
The Doors — “Light My Fire”. Teatro, perigo e órgão em combustão lenta.
04. Rock progressivo
O progressivo olhou para a canção de três minutos e perguntou: “Por que parar agora?” Vieram suítes, compassos irregulares, álbuns conceituais, sintetizadores, mellotrons e histórias que atravessavam lados inteiros do vinil.
Pink Floyd, com George Roger Waters no baixo e voz, David Jon Gilmour na guitarra e voz, Richard William Wright nos teclados e Nicholas Berkeley Mason na bateria, fez arquitetura emocional. Yes elevou virtuosismo e harmonia: Jonathan “Jon” Anderson na voz, Christopher Russell Edward Squire no baixo, Stephen James Howe na guitarra, Richard Christopher Wakeman nos teclados e Alan White na bateria em formações clássicas. Rush fez três músicos soarem como uma pequena civilização: Geddy Lee Weinrib no baixo, voz e teclados; Aleksandar Živojinović — Alex Lifeson — na guitarra; Neil Ellwood Peart na bateria e letras.
Yes — “Soon”. Quando delicadeza e complexidade embarcam no mesmo vagão.
05. Glam rock
O glam entendeu que o palco também podia ser cinema. Sapatos altos, maquiagem, purpurina, ambiguidade e riffs diretos: não era fantasia escondendo a música; era a imagem ampliando a música.
David Robert Jones — David Bowie — transformou reinvenção em profissão. Marc Feld, o Marc Bolan do T. Rex, colocou sensualidade no boogie. New York Dolls antecipou o punk com excesso e perigo. No Brasil, Secos & Molhados, com Ney de Souza Pereira — Ney Matogrosso — na voz, João Ricardo na composição, violão e voz, e Gérson Conrad no violão e voz, fez o país encarar uma nova linguagem cênica.
T. Rex — “Bang a Gong (Get It On)”. Glamour com motor de rock and roll.
06. Folk rock
Violão, harmônica, tradição oral e a velha necessidade de dizer alguma coisa importante. O folk rock mostrou que a eletricidade podia carregar poesia, protesto e memória.
Robert Allen Zimmerman — Bob Dylan — transformou a canção popular em literatura pública. Woodrow Wilson Guthrie — Woody Guthrie — abriu estradas antes dele. Joni Mitchell, nascida Roberta Joan Anderson, trouxe afinações abertas, guitarra, piano e uma escrita que parecia diário e mapa ao mesmo tempo. Simon & Garfunkel reuniu Paul Frederic Simon — voz e violão — e Arthur Ira Garfunkel — voz — numa das harmonias mais reconhecíveis da música.
Simon & Garfunkel — “The Sound of Silence”. Duas vozes, um silêncio que nunca ficou vazio.
07. Hard rock
O blues ganhou amplificadores maiores, a bateria ficou pesada, os riffs viraram monumentos e a década de 1970 aprendeu a tremer. Led Zeppelin reuniu Robert Anthony Plant na voz, James Patrick Page na guitarra, John Richard Baldwin — John Paul Jones — no baixo e teclados, e John Henry Bonham na bateria. Deep Purple, Black Sabbath, Kiss e AC/DC ampliaram diferentes faces da mesma tempestade.
John Bonham partiu em 1980, mas sua bateria continua soando como se o chão tivesse memória. É impossível ouvir “Immigrant Song” sem sentir que alguma coisa enorme acaba de aparecer no horizonte.
Led Zeppelin, 1972. Não é apenas volume: é impacto físico.
08. Heavy metal
O heavy metal pegou a densidade do hard rock e construiu uma linguagem própria: guitarras gêmeas, baixos trovejantes, baterias de aço, vocais que iam do grave ao impossível e uma iconografia inteira.
Iron Maiden: Paul Bruce Dickinson na voz; Stephen Percy Harris no baixo e composição; David Michael Murray, Adrian Frederick Smith e Janick Robert Gers nas guitarras; Michael Henry McBrain — Nicko McBrain — na bateria durante décadas. Motörhead tinha Ian Fraser Kilmister — Lemmy — no baixo e voz. Judas Priest colocou Kenneth Downing Jr. — K. K. Downing — e Glenn Raymond Tipton nas guitarras, Ian Frank Hill no baixo, Scott Travis na bateria e Robert John Arthur Halford — Rob Halford — na voz.
E então, para descansar um pouco, nada melhor que “Painkiller”. Sim, meus Nômades, “descansar”.
Judas Priest — “Painkiller”. Relaxamento segundo o manual Passport Radio.
09. Punk rock
O punk devolveu o rock à urgência. Menos solo, mais mensagem. Menos perfeição, mais necessidade. Ramones, Sex Pistols, The Stooges e The Clash transformaram frustração social em velocidade.
The Clash: John Graham Mellor — Joe Strummer — na voz e guitarra; Michael Geoffrey Jones — Mick Jones — na guitarra e voz; Paul Gustave Simonon no baixo; Nicholas Bowen Headon — Topper Headon — na bateria na formação clássica. Eles fizeram punk sem fechar as fronteiras: reggae, dub, ska, rockabilly e política entraram no mesmo passaporte.
The Clash em Paris, 1980. A cidade muda; o alerta continua.
10. New wave
A new wave nasceu ao lado do punk, mas abriu as janelas para sintetizadores, pop, disco, arte e moda. The Police, Talking Heads, Blondie, The B-52’s e The Cars mostraram que inteligência e refrão podiam dançar juntos.
The Cars trazia Benjamin Orzechowski — Benjamin Orr — no baixo e voz; Richard Theodore Otcasek — Ric Ocasek — na guitarra e voz; Elliot Easton na guitarra; Gregory Hawkes nos teclados; David Robinson na bateria. Benjamin Orr partiu em 2000. Sua voz em “Drive” permanece suave, humana e dolorosamente próxima.
The Cars — “Drive”, Live Aid 1985. Algumas vozes não envelhecem; elas viram lugar.
11. Rock alternativo
“Alternativo” começou como aquilo que vivia fora da estrada principal. R.E.M., Pixies e depois Radiohead provaram que estranheza, fragilidade e experimentação também podiam alcançar multidões.
Radiohead: Thomas Edward Yorke — Thom Yorke — na voz, guitarra e teclados; Jonathan Richard Guy Greenwood — Jonny Greenwood — na guitarra, teclados e arranjos; Colin Charles Greenwood no baixo; Edward John O’Brien — Ed O’Brien — na guitarra e voz; Philip James Selway na bateria.
Radiohead — “Fake Plastic Trees”, 1996. Não chorem, Nômades. Ou chorem. Esta passagem permite bagagem emocional.
12. Grunge
Seattle, chuva, flanela, guitarras espessas e letras que não fingiam que tudo estava bem. Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden deram voz a uma geração desconfiada do brilho artificial.
Soundgarden reuniu Christopher John Cornell — Chris Cornell — na voz e guitarra; Kim Anand Thayil na guitarra; Hiro Yamamoto e depois Ben Shepherd no baixo; Matthew David Cameron — Matt Cameron — na bateria. Chris partiu em 2017, e o vazio permanece. Mas basta a primeira entrada de “Outshined” para aquela voz atravessar novamente a parede.
Soundgarden em Los Angeles, 1991. Chris Cornell: potência, sombra e uma saudade que não cabe no amplificador.
13. Pop punk
O pop punk pegou a velocidade do punk, acrescentou melodias imediatas, humor, sarcasmo e crises adolescentes. Blink-182, Green Day, The Offspring e Yellowcard fizeram milhões de jovens perceberem que crescer era estranho — e que isso podia render um refrão perfeito.
Blink-182, em sua formação mais conhecida: Mark Allan Hoppus no baixo e voz; Thomas Matthew DeLonge — Tom DeLonge — na guitarra e voz; Travis Landon Barker na bateria. Piadas, ansiedade, relacionamentos, alienação e três minutos de energia: parecia simples. Não era.
Blink-182 — Reading Festival, 2000. Irreverência, velocidade e a juventude fazendo barulho antes da hora de voltar para casa.
Ficaram de fora o southern rock, o indie, o post-punk, o gothic rock, o doom, o thrash, o death, o black metal, o power metal, o metal progressivo, o shoegaze, o britpop, o stoner e tantas outras rotas. Isso não é falha. É convite.
Porque o rock nunca foi uma única árvore. É uma floresta inteira. Algumas espécies nasceram no mesmo solo; outras vieram de longe; algumas desapareceram cedo demais; outras continuam crescendo. Todas deixaram raízes.
Passaportes na mão, Nômades?
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