Há músicos que entram para a história porque fundaram uma banda. Há músicos que entram porque escreveram uma canção. E há aqueles que passam a vida inteira recebendo telefonemas.
Um cantor precisa de um baterista. Telefone. Uma banda precisa continuar. Telefone. David Gilmour precisa montar uma banda. Telefone. Jimmy Page começa um novo capítulo depois do Led Zeppelin. Telefone. AC/DC já ouviu dezenas de bateristas e ainda procura o homem certo. Telefone.
Durante mais de seis décadas, muitas dessas chamadas acabaram no mesmo lugar. O homem que atendia tinha um nome completo que quase ninguém conhece: Christopher Slade Rees. O mundo passou a conhecê-lo simplesmente como Chris Slade.
01 · PONTYPRIDDAntes de existir AC/DC.
Chris nasceu em 30 de outubro de 1946, em Pontypridd, no País de Gales. Seu irmão mais velho, Danny, ajudou a colocá-lo diante da bateria. Por volta dos dez ou onze anos, as baquetas já estavam nas mãos. Aos dezesseis, aquilo já era profissão.
Na mesma região havia outro jovem galês: Thomas John Woodward. O mundo o conheceria como Tom Jones.
Antes de Donington, Madison Square Garden.
Dizer apenas que Slade “tocou com Tom Jones” esconde a escala do começo da viagem. Ele acompanhou a ascensão internacional do cantor e chegou aos grandes palcos americanos ainda muito jovem. Em uma dessas passagens, tocou durante uma semana no Madison Square Garden, numa situação em que a seção rítmica envolvia músicos da Count Basie Orchestra.
Era uma escola de adaptação: pop britânico de um lado, uma das grandes tradições do jazz americano do outro, uma arena em volta. E houve Wembley, no coração da explosão pop britânica, em eventos que colocavam no mesmo universo nomes que hoje parecem pertencer a planetas diferentes.
E há uma fotografia que resume o absurdo dessa fase: Chris Slade entre Tom Jones e Elvis Presley. Foi através de Tom Jones que Slade conheceu Elvis. Décadas depois ele brincaria com aquela imagem chamando-a de “Who’s that with Slade?”.


Olivia antes de Grease.
Em 1970, a estrada fez outra curva. Slade apareceu em Toomorrow, ao lado de uma jovem Olivia Newton-John, anos antes de ela se transformar numa estrela mundial.
O NME registrou a formação em agosto de 1970 e contou que Slade havia sido escolhido entre 300 candidatos para a vaga de baterista. A carreira já começava a parecer um mapa: pop, jazz, progressivo, hard rock, supergrupos e arena rock cruzando as mesmas mãos.

A Terra começa a girar.
Slade se tornou um dos membros fundadores da Manfred Mann's Earth Band e permaneceu nos oito primeiros álbuns de estúdio. Há um detalhe que parece pequeno, mas muda a história: segundo o próprio Chris, quando procuravam um nome para o grupo, foi ele quem soltou a sugestão “Earth Band”. Ficou.
No caminho vieram Joybringer, Davy's on the Road Again e a transformação de Blinded by the Light numa gravação gigantesca.

Manfred Mann's Earth Band · “Blinded by the Light” · Live in the USA · 1976 · Chris Slade na bateria.
THE EARTH BAND YEARS
Uriah Heep. Gary Numan. Pino Palladino.
Em 1980 veio Uriah Heep e Conquest. Depois, Gary Numan. Nessa órbita aparece ainda um jovem baixista fretless chamado Pino Palladino. Slade chegou a recomendá-lo para Numan. Outra vez, Chris estava num cruzamento que só ficaria óbvio décadas depois.
06 · O TELEFONEDavid Gilmour liga.
O telefone tocou. David Gilmour preparava a banda para a turnê de About Face e queria Slade. Chris aceitou. Uma ligação dessas já seria suficiente para qualquer carreira.
Só que o telefone tocou novamente.
Jimmy Page e Paul Rodgers estavam formando uma banda. Page queria Slade. Havia um problema: Chris acabara de dar sua palavra a Gilmour. Page respondeu, essencialmente: tudo bem. Nós esperamos.
David Gilmour · “Run Like Hell” · Hammersmith Odeon · 1984 · Chris Slade na bateria.
Jimmy Page esperou.
A turnê de Gilmour cresceu. Chris avisava Page. Mais datas. Page esperava. Mais datas. Esperava. No final, a espera chegou perto de nove meses.
Depois da morte de John Bonham e do fim do Led Zeppelin, Slade se tornaria o primeiro baterista permanente escolhido por Page para uma nova banda: The Firm. Jimmy Page. Paul Rodgers. Tony Franklin. Chris Slade.

THE FIRM
Há material conhecido de Satisfaction Guaranteed, mas aqui a Passport não transforma videoclipe em “live”. O arquivo audiovisual desta página fica restrito a performance de concerto real.
08 · GARY MOOREQuatro dias. Depois, Japão.
No fim dos anos 1980, Gary Moore precisava de um baterista. Slade teve apenas quatro dias para aprender o set. Pouco depois já estava na estrada, incluindo Japão. Ele próprio lembraria aquilo como uma das provas mais difíceis da carreira.
Durante essa fase, Malcolm Young apareceu num show. Bob Daisley apresentou os dois quase casualmente: “Slade, este é Mal.”
Mal. Malcolm Young. AC/DC.
Cerca de cem bateristas.
A busca do AC/DC havia passado por aproximadamente cem bateristas. Alguns já pertenciam a bandas conhecidas. Slade chegou praticamente no fim daquela fila.
Sentou diante do kit. Angus e Malcolm ficaram a poucos metros do bumbo, observando. Back in Black. Depois material novo: Rock Your Heart Out.
Terminou. Guardou as coisas. Entrou no carro. E concluiu que tinha feito uma merda.
10 · A VOLTA PARA CASAA pior audição da vida.
Chris dirigia reconstruindo mentalmente tudo que achava ter feito errado. Ligou para a esposa e anunciou o desastre. E conseguiu uma façanha: se perdeu voltando para a própria casa.
Quando finalmente chegou, ela tinha uma notícia.
A banda tomou a decisão antes mesmo de Chris conseguir encontrar o caminho de casa.
11 · THE RAZORS EDGEThunder.
Em 1990 chegou The Razors Edge. A primeira faixa começava com uma guitarra que dispensava apresentação: Thunderstruck.
Escute a bateria separadamente. Não há desperdício. Não há tentativa de transformar a música numa clínica. Há força, espaço e precisão. A função era fazer aquela máquina parecer inevitável.
12 · DONINGTON17 de agosto de 1991.
Castle Donington. Monsters of Rock. Canhões. Sinos. Brian Johnson. Malcolm. Angus. Uma massa humana interminável. E atrás deles: Chris Slade.
A apresentação seria eternizada como Live at Donington. Para uma geração inteira, quando alguém diz “AC/DC ao vivo”, é aquela imagem que aparece primeiro.
AC/DC · “Thunderstruck” · Live at Donington · 17 August 1991.
A banda precisava respirar.
Slade não queria um click track martelando no ouvido. Preferia uma referência visual de andamento. Uma luz pulsava o tempo, ele absorvia, contava a entrada e a banda seguia organicamente.
Quando alguém dizia que as músicas aceleravam, sua resposta era simples: os tempos eram definidos por Angus e Malcolm. Ele fazia a máquina andar.
14 · PHIL RUDDNão era fracasso.
Em 1994, AC/DC quis experimentar novamente com Phil Rudd. Phil pertencia ao DNA histórico da banda. Slade saiu.
Depois de uma vida praticamente inteira tocando, passou um período longe da bateria. Arte. Desenho. Escultura. Depois de décadas de amplificadores, silêncio.
15 · TIMELINEA própria vida virou repertório.
Vieram trabalhos com Asia, incluindo Aura e Silent Nation. Mais tarde surgiu a Chris Slade Timeline.
O nome era perfeito. Tom Jones, Manfred Mann, Gilmour, The Firm, Gary Moore, AC/DC: poucos músicos poderiam montar um retrospecto daquele tamanho sem tocar covers. Slade simplesmente tocava capítulos da própria vida.
16 · AC/DC, OUTRA VEZO telefone ainda sabia o número.
2015. Mais de vinte anos depois. AC/DC precisava novamente de um baterista.
No Grammy Awards, atrás do kit, estava Chris Slade. Quase setenta anos. De volta à máquina. A Rock or Bust World Tour o levou novamente aos grandes estádios.
E quando Brian Johnson precisou se afastar de parte da turnê, Axl Rose assumiu o microfone. O garoto que começara com Tom Jones agora tocava AC/DC atrás de Axl Rose.
THE CHRIS SLADE FILES · SELECTED DISCOGRAPHY
TEN TRACKS THROUGH SIX DECADES
- Tom Jones — It's Not Unusual
- Manfred Mann's Earth Band — Joybringer
- Manfred Mann's Earth Band — Blinded by the Light
- Manfred Mann's Earth Band — Davy's on the Road Again
- Uriah Heep — Feelings
- The Firm — Radioactive
- The Firm — Satisfaction Guaranteed
- Gary Moore — Blood of Emeralds
- AC/DC — Thunderstruck
- AC/DC — Big Gun
Até não conseguir mais entregar.
Anos antes, perguntaram a Slade sobre aposentadoria. A ideia era continuar enquanto pudesse tocar com a potência que sempre exigiu de si mesmo. Quando não conseguisse mais entregar aquilo, seria a hora.
Em agosto de 2026, aos 79 anos, aquela hora chegou. Os efeitos de um AVC sofrido anos antes haviam piorado. Ele queria continuar. O corpo decidiu outra coisa.
18 · O HOMEM QUE ESTAVA LÁTalvez tenhamos contado o rock da maneira errada.
Falamos de quem estava na frente. Vocalistas. Guitarristas. Compositores. Mas existe outra história alguns metros atrás.
Tom Jones começava a conquistar o mundo. Slade estava lá.
A Earth Band nascia. Slade estava lá.
Gilmour precisava de uma banda. Slade estava lá.
Jimmy Page procurava o próximo capítulo. Esperou por Slade.
Gary Moore precisava manter a estrada andando. Slade estava lá.
AC/DC procurou entre aproximadamente cem bateristas. Escolheu Slade.
Christopher Slade Rees passou mais de sessenta anos sendo esse homem.
Agora, aos 79, as baquetas descansam. Mas coloque Blinded by the Light. Coloque The Firm. Coloque The Razors Edge. Coloque Donington. Aumente o volume. Espere Angus terminar aquela introdução.
E quando a bateria entrar, Chris Slade estará novamente onde passou a vida inteira.
Atrás da música.
Segurando a máquina.
Mantendo o trovão vivo.
Algumas pessoas entram para a história porque fundaram uma banda. Chris Slade entrou porque, durante seis décadas, quando uma grande banda precisava de alguém capaz de segurar a máquina, ele sabia exatamente onde colocar a caixa.
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