Inacreditáveis 46 anos depois, o lendário grupo paulistano de rock Casa das Máquinas
está de volta com um novo disco de estúdio, o quarto de sua carreira:
Brilho nos Olhos, aguardado por fãs desde a pandemia.
É muito louco pensar que quando eu nasci eles já estavam há 15 anos sem um registro de estúdio.
A banda foi parte de um verdadeiro movimento setentista de nomes nacionais que editaram
música de qualidade indiscutível, mas acabaram eclipsados com o advento do chamado “BRock”
nos anos oitenta. Adotava uma linha de rock and roll clássico com temperos de progressivo.
Quase meio século entre dois discos
O quase meio século que os separa do último registro de estúdio,
Casa de Rock, de 1976, obviamente faz com que o trabalho não soe como uma sequência óbvia.
Entram no jogo outras tecnologias, outros instrumentos, outra bagagem e outra formação:
Ivan Gonçalves nos vocais — que anunciou sua saída entre as gravações e o lançamento —,
Mário Testoni nos teclados, único membro restante da formação original,
Cadu Moreira na guitarra e violão, Geraldo Vieira no baixo e Lucas Tagliari na bateria.
Mas a mudança de sonoridade foi incrivelmente suave, considerando o longo período
que separa as duas obras.
Rock básico na essência, sofisticado no aroma
Sim, o quinteto segue fazendo um rock temperado com progressivo.
Um rock “basicão” na essência, mas com aromas de sofisticação suficientes para “progredir”.
Por exemplo, a abertura “Tão Down” e a penúltima “A Nova Casa (Sob Nova Direção)”
são bem sessentistas, mas têm umas viradas intrincadas mais progressivas.
A segunda poderia muito bem ter sido a primeira:
que melhor maneira de abrir o álbum do que uma letra que é um verdadeiro comunicado oficial?
O progressivo entra em cena
Essa progressão vem com mais força na faixa-título,
que mistura momentos bem serenos à la Pink Floyd com passagens intrincadas,
bem como “Horizonte” e “Ato Lisérgico” —
se esta última não fosse puxada pro progressivo,
eu faria manifestação na frente do estúdio.
“Se ‘Ato Lisérgico’ não fosse puxada pro progressivo,
eu faria manifestação na frente do estúdio.”
E o apelo ao rock ’n’ roll fica mais em músicas como “A Rua”,
que quase paradoxalmente tem um refrão com coro infantil
que nos remete a “Another Brick in the Wall, Part 2”,
uma das maiores pérolas progressivas da história do rock,
assinada pelo Pink Floyd lá em 1979.
Um retorno que ninguém ousaria pedir
O retorno do Casa das Máquinas quatro décadas e meia depois
é o tipo de coisa tão improvável que ninguém se daria o trabalho de pedir,
mas ao mesmo tempo tão desejável que todo mundo aceitaria ouvir
com um sorriso no rosto — e um brilho nos olhos,
se me permitem o trocadilho.
Passport Verdict
4,5 / 5
Um retorno que não vive apenas da nostalgia.
Brilho nos Olhos encontra uma nova formação,
atravessa quase meio século e mantém a Casa das Máquinas funcionando.
3... 2... 1... CLICK!