Você não lembrava dessa música. Até ela começar a tocar.
Rádio. Novela. TV. Danceteria. Cinema. Shows. Agora volte e descubra quem estava tocando dentro das músicas que o Brasil nunca esqueceu.
Talvez exista uma maneira mais rápida de viajar no tempo do que fechar os olhos.
Aperte play.
Só isso.
Não procure uma fotografia. Não abra uma caixa velha. Não tente lembrar onde você morava.
Espere cinco segundos.
Talvez três.
Às vezes basta um.
Um sintetizador. Uma virada de bateria. Uma linha de baixo. Uma guitarra. Uma voz.
E pronto. Você voltou.
Não necessariamente para um ano. Você voltou para uma sala. Um carro. Uma cozinha. Uma escola. Uma danceteria. Um quarto. Uma televisão ligada enquanto alguém fazia jantar.
Talvez para uma fita cassete esperando aquela música tocar novamente no rádio para você conseguir gravá-la inteira.
Talvez você nem soubesse inglês. Não importava. Você sabia cantar.
A pergunta não é quem começou nos anos 80. A pergunta é: o que estava tocando na vida do brasileiro nos anos 80?
Agora a Passport faz outra coisa.
Lupa. Bisturi. PLAY.
Não basta lembrar. Vamos abrir cada performance, tirar a estrela do centro por alguns segundos e procurar o baixo, a bateria, os teclados, a guitarra, os sopros, os backing vocals, a respiração e o espaço entre as notas.
01 · Men at Work — primeiro o saxofone.
Antes de Colin Hay, escute Greg Ham. Saxofone, flauta, teclados e vocais. Depois procure Ron Strykert, John Rees e Jerry Speiser. Só então devolva a música ao vocal.
Men At Work · Who Can It Be Now / Overkill / Down Under · 1983
02 · Whitney Houston — tente escutar a banda enquanto aquela voz acontece.
Wembley. 1988. Faça força para não seguir apenas Whitney. Primeiro bateria. Depois baixo. Teclados. Backing vocals. O palco inteiro precisa respirar com ela.
Whitney Houston · I Wanna Dance with Somebody · Wembley · 1988
03 · Marvin Gaye — Montreux, 1980. Agora abra a música.
Marvin entra nos anos 80 carregando quase duas décadas de história. “Let's Get It On” já era memória. Em Montreux ela vira corpo outra vez.
Marvin Gaye · Let's Get It On · Montreux · 1980
Talvez a década tenha mudado. Marvin ainda sabia exatamente onde o tempo respirava.
04 · Ritchie — você não precisa procurar Menina Veneno. Ela encontra você.
Algumas músicas não pedem licença para voltar. Um teclado, uma frase, uma memória inteira reaparece.
Ritchie · Menina Veneno · 10 Anos 80 · Multishow
05 · Lionel Richie — Easy. E nada ali é tão fácil quanto parece.
A canção parece deslizar. Esse é o truque. Quando a música soa simples, quase sempre existe uma banda trabalhando para esconder o esforço.
Lionel Richie · Easy
06 · Diana Ross — Missing You.
Há músicas que a memória guarda pelo tamanho da produção. Outras, pela ausência que carregam.
Diana Ross · Missing You
07 · Stevie Wonder — uma canção pode sobreviver à própria década.
“I Just Called To Say I Love You” ficou presa nos anos 80. A performance de Londres, em 1995, mostra o que acontece quando a memória envelhece junto com quem a canta.
Stevie Wonder · I Just Called To Say I Love You · Londres · 1995
08 · George Benson — a guitarra sabe cantar também.
Montreux. 1990. Uma música que já havia atravessado rádios e salas brasileiras ganha palco.
George Benson · Nothing's Gonna Change · Montreux Jazz Festival · 1990
09 · Tina Turner — primeiro a máquina. Depois o incêndio.
“What's Love Got To Do With It” parece pertencer à voz. No palco, olhe a engrenagem inteira.
Tina Turner · What's Love Got To Do With It · ao vivo em Arnhem
10 · Donna Summer — Last Dance ainda sabe exatamente quando levantar a sala.
A memória pode começar como balada e terminar em pista.
Donna Summer · Last Dance · VH1 Presents Live & More Encore!
11 · Barry White — Sanremo, 1981. Grave não é volume. É presença.
“Just the Way You Are”. Uma voz reconhecível antes mesmo de você lembrar o título.
Barry White · Just the Way You Are · Sanremo · 1981
12 · Al Jarreau — Moonlighting e a voz que também vira instrumento.
1987. Aqui a lupa precisa acompanhar articulação, ritmo e respiração.
Al Jarreau · Moonlighting · TV · 1987
13 · Earth, Wind & Fire — depois do amor, escute o arranjo.
“After the Love Has Gone” parece uma canção que sempre existiu. Esse é o perigo das grandes construções: a engenharia desaparece.
Earth, Wind & Fire · After The Love Has Gone · ao vivo
14 · Kool & The Gang — Cherish.
Talvez você lembre primeiro do refrão. Faça o contrário.
Kool & The Gang · Cherish · ao vivo
15 · Chicago — Hard to Say I'm Sorry, 1982.
Não deixe a melodia esconder a banda.
Chicago · Hard To Say I'm Sorry · ao vivo · 1982
16 · Hall & Oates — Out of Touch depois dos anos 80.
1991. A música já havia virado lembrança. Agora escute o que o palco fez com ela.
Hall & Oates · Out of Touch · 1991
17 · Elton John — Nikita, Verona, 1989.
Uma daquelas melodias que bastam poucas notas para abrir uma porta.
Elton John · Nikita · Verona · 1989
18 · Tim Maia — Azul da Cor do Mar.
Agora acabou a fronteira entre internacional e nacional. Memória não pede passaporte.
Tim Maia · Azul da Cor do Mar · ao vivo
19 · Jorge Ben Jor — País Tropical.
Ritmo não é pano de fundo aqui. É personagem.
Jorge Ben Jor · País Tropical
20 · Guilherme Arantes — Cheia de Charme, 1985.
Teclado. Melodia. Brasil. E uma década inteira escondida em timbres.
Guilherme Arantes · Cheia de Charme · 1985
21 · Lulu Santos — Certas Coisas.
Há silêncio que também é música. Há espaço que também toca.
Lulu Santos · Certas Coisas · ao vivo
22 · Marina Lima — À Francesa, Canecão, 1992.
A década acabou no calendário. A música não recebeu o aviso.
Marina Lima · À Francesa · Canecão · 1992
23 · Rita Lee — Bwana.
Rita nunca precisou pedir licença para atravessar épocas.
Rita Lee · Bwana · Multishow Ao Vivo
24 · Ney Matogrosso — Sangue Latino.
É quase impossível tirar os olhos de Ney. Então tire.
Ney Matogrosso · Sangue Latino · ao vivo
25 · Zizi Possi — Perigo, Manchete, 1986.
A televisão também ensinou o Brasil a lembrar.
Zizi Possi · Perigo · Especial da Manchete · 1986
26 · Fábio Jr. — quando a televisão, a canção e a lembrança viram uma coisa só.
“Sem Limites Pra Sonhar”. “Quando Gira o Mundo”. Talvez você não consiga separar música de imagem. Isso também é memória musical brasileira.
Fábio Jr. · Sem Limites Pra Sonhar / Quando Gira o Mundo · ao vivo
27 · Roupa Nova — Linda Demais.
Talvez aqui esteja uma das maiores armadilhas da memória brasileira: todo mundo conhece a voz. Nem todo mundo escutou a banda.
Roupa Nova · Linda Demais · ao vivo
28 · Pepeu Gomes — Mil e Uma Noites de Amor.
Se você entrar apenas pela melodia, vai perder metade da conversa.
Pepeu Gomes · Mil e Uma Noites de Amor · Pepeu 50 a Mais de Mil · Canal Bis
29 · Gal Costa — Um Dia de Domingo.
Duas vozes podem ser a memória mais óbvia. O trabalho é descobrir o que existe entre elas.
Gal Costa · Um Dia de Domingo
30 · Djavan — Oceano.
Há canções que parecem delicadas até você tentar desmontá-las.
Djavan · Oceano · ao vivo
31 · Sandra de Sá — Solidão / Retratos e Canções.
A voz vem com força. O groove vem antes.
Sandra de Sá · Solidão / Retratos e Canções · Radio Mania
32 · Lobão — Decadence Avec Elegance.
Agora a memória troca de roupa. Continua sendo a mesma década.
Lobão · Decadence Avec Elegance · DVD ao vivo
33 · O teste final.
Agora escolha qualquer vídeo desta página.
Não olhe para a estrela.
Primeiro PLAY: bateria.
Segundo PLAY: baixo.
Terceiro PLAY: teclados ou guitarra.
Quarto PLAY: vozes de apoio, sopros, percussão, detalhes.
Quinto PLAY: tudo.
E talvez seja por isso que algumas músicas não envelhecem.
Elas continuam esperando alguém voltar e escutar direito.
Mr. Nomad
Eu não volto aos anos 80 para morar no passado. Volto para descobrir quem estava tocando dentro das memórias que ainda vivem no presente.