Mr. Nomad · 1986 · Rock · Rádio · Memória
1986: quando o rádio ainda podia mudar o seu dia.
26 músicas e histórias para voltar a um ano — e talvez a uma parte de quem nós nos tornamos.
Existe uma coisa cruel sobre a nostalgia: você nunca sabe que está vivendo uma época da qual sentirá saudade.
Em 1986 ninguém acordava pensando: “preciso aproveitar bem esta manhã porque daqui a quarenta anos vou sentir falta dela”.
Você simplesmente ligava o rádio.
Talvez estivesse indo trabalhar. Talvez voltando da escola. Talvez houvesse uma fita cassete esperando dentro do aparelho e você torcesse para o locutor ficar quieto antes do primeiro acorde, porque queria gravar a música inteira.
Talvez você tivesse quinze anos. Vinte. Trinta. Talvez nem tivesse nascido.
Não importa.
Porque algumas músicas conseguem fazer uma coisa que calendários não conseguem: elas devolvem lugares.
Um quarto. Um carro. Uma pessoa. Um cheiro. Uma camiseta que não existe mais. Alguém que também não existe mais.
E durante alguns minutos está tudo lá novamente.
1986 foi um desses anos. Robert Palmer estava no rádio. Peter Gabriel estava no rádio. Journey, Genesis, Heart, Bon Jovi, Steve Winwood, Boston, Van Halen...
O rock em 1986 dividia espaço com pop, sintetizadores, guitarras, MTV, cinema e uma indústria musical que ainda conseguia colocar coisas completamente diferentes umas ao lado das outras.
Então hoje não quero fazer ranking. Não quero escolher “a melhor”. E não quero transformar os grandes sucessos de 1986 numa aula de história.
Quero ligar aquele rádio novamente.
Se você viveu 1986, venha buscar alguma coisa que talvez tenha deixado lá.
Se não viveu...
Senta aí. Vou mostrar como aquela droga soava.
Robert Palmer — Addicted to Love
Começamos com uma música que parece ter nascido sabendo que seria famosa.
Robert Allen Palmer na voz. E atrás daquela imagem que a MTV ajudou a transformar em cultura pop existe uma rede de músicos que merece atenção.
A gravação contou com Andy Taylor, do Duran Duran, na guitarra, e Tony Thompson, do Chic, na bateria — dois músicos que também haviam trabalhado com Palmer no The Power Station.
E a história poderia ter soado ainda diferente: Chaka Khan esteve ligada à ideia original de transformar a faixa em um dueto, colaboração que não chegou à versão lançada.
The Firm — quando os nomes eram grandes demais para caber na capa
James Patrick Page. Jimmy Page. Led Zeppelin.
Paul Bernard Rodgers. Free. Bad Company.
Tony Franklin no baixo. Chris Slade na bateria.
Leia os nomes novamente.
Boston — Amanda
E de repente 1986 fica silencioso.
Existem músicas que não precisam derrubar a porta. Elas entram pela memória.
“Amanda” havia sido gravada anos antes de finalmente aparecer em Third Stage.
Mas a música esperou. O mundo mudou. E quando finalmente chegou, encontrou o seu momento.
American Storm — a tempestade não era aquela que parecia
Robert Clark Seger. Bob Seger.
Uma daquelas vozes que parecem ter percorrido quilômetros antes de chegar ao microfone.
“American Storm” podia soar como uma grande declaração americana. Mas Seger explicou a música a partir de outra tempestade: o abuso de cocaína.
Journey — Raised on Radio
Raised on Radio.
Criado pelo rádio.
Steve Perry. Neal Schon. Jonathan Cain. Ross Valory. Steve Smith.
Antes de um algoritmo decidir o que vinha depois, existia a espera.
E justamente porque não sabia o que viria... você descobria.
Peter Gabriel — Big Time
Peter Brian Gabriel nunca pareceu particularmente interessado em fazer as coisas da maneira mais óbvia.
So transformou 1986 num ano enorme para sua carreira solo.
Mas nós somos a Passport. Então tire os olhos do videoclipe por alguns minutos.
Kenny Loggins — Danger Zone
Se você leu o título e imediatamente apareceu um caça na sua cabeça...
bem-vindo a 1986.
Top Gun e “Danger Zone” ficaram tão grudados um no outro que hoje parece difícil imaginar uma coisa sem a outra.
The Hooters — Day by Day
Eric Bazilian. Voz, guitarras, bandolim e outras ferramentas.
Rob Hyman. Voz, teclados e acordeão.
David Uosikkinen. Bateria.
John Lilley. Guitarra.
Você conhecia a música. Talvez conhecesse Cyndi Lauper. Talvez conhecesse o Hooters.
Mas sabia que essas estradas se encontravam?
Interrupção não solicitada · Passport Radio
Já está procurando aquela música de 1986 que ficou faltando?
Eu sei. Eu sei. Eu sei.
Aquela banda. Aquela música. Aquela que você tinha certeza de que estaria aqui.
Ela é delicada assim. Continue. Se Mr. Nomad realmente esqueceu a sua, no final você ganha o direito de reclamar.
Crowded House — Don't Dream It's Over
Algumas músicas pertencem ao ano em que foram lançadas.
Outras continuam procurando novas pessoas.
Glass Tiger — Don't Forget Me (When I'm Gone)
Existe uma voz aparecendo no refrão.
Rouca. Familiar.
Bryan Adams.
Pretenders — Don't Get Me Wrong
Chrissie Hynde colocou “Don't Get Me Wrong” entre os grandes sucessos daquele período.
Wang Chung — Everybody Have Fun Tonight
Poucas bandas conseguem transformar o próprio nome em verbo dentro de uma música e sair impunes.
Wang Chung conseguiu.
The Rolling Stones — Harlem Shuffle
“Harlem Shuffle” não nasceu com os Rolling Stones.
É assim que a música funciona. Uma década conversa com outra mesmo quando ninguém pediu permissão.
Steve Winwood — Higher Love
Lembra de Chaka Khan lá no começo?
Ela voltou.
Chaka aparece nos backing vocals de “Higher Love”.
Huey Lewis & The News — Hip to Be Square
Jogadores do San Francisco 49ers participaram dos backing vocals da gravação.
Sim. Backing vocals.
Eddie Money — I Wanna Go Back
I Wanna Go Back.
Preciso mesmo explicar por que esse título pertence a uma matéria sobre nostalgia?
Voltar para onde?
Para 1986?
Ou para quem você era em 1986?
Peter Gabriel — In Your Eyes
“In Your Eyes” trouxe também Youssou N'Dour e a língua wolof para dentro de uma gravação que alcançaria milhões.
Genesis — Invisible Touch
Phil Collins. Tony Banks. Mike Rutherford.
Uma banda mudando sem apagar completamente aquilo que havia sido.
Eric Clapton — It's in the Way That You Use It
Eric Clapton, Robbie Robertson e Martin Scorsese cruzando caminhos numa mesma história.
.38 Special — Like No Other Night
Bon Jovi — Livin' on a Prayer
Existem refrões famosos.
E existem refrões que parecem ter adquirido cidadania própria.
“Livin' on a Prayer” pertence à segunda categoria.
Van Halen — Love Walks In
Edward Lodewijk Van Halen. Alex Van Halen. Michael Anthony. Samuel Roy Hagar.
Uma nova voz. Uma banda enorme. Outra fase começando.
Heart — These Dreams
Desta vez quem assume o vocal principal é Nancy Wilson.
Às vezes uma canção precisa encontrar a voz certa.
The Outfield — Your Love
Algumas entradas precisam de segundos para serem reconhecidas.
Essa precisa de quase nada.
Cinderella — o começo de uma história maior
Nem toda história de 1986 precisa terminar em 1986.
Concrete Blonde
Johnette Napolitano.
Voz.
E baixo.
James Mankey na guitarra.
Talvez você não esteja com saudade de 1986.
Talvez esteja com saudade de quem você era quando ouviu essas músicas.
Talvez daquela casa. Daquele carro. Daquele rádio. Da pessoa que estava ao seu lado.
Talvez de uma tarde que parecia completamente comum e que acabou ficando guardada para sempre dentro de uma canção.
Passamos boa parte da vida esperando o futuro chegar.
E quando ele finalmente chega...
colocamos uma música antiga para visitar o passado.
Agora é sua vez
Eu sei. Eu sei. Eu sei. Está faltando aquela banda.
Aquela música que você procurou desde o começo e pensou: “Como ele conseguiu esquecer essa droga?”
Talvez eu tenha esquecido mesmo.
Porque nenhuma lista consegue guardar um ano inteiro.
Então, em vez de reclamar sozinho para a tela, participe.
Qual banda ficou faltando? Qual música? E por que ela deveria estar aqui?
Talvez ela entre na programação. Talvez vire uma história. Talvez seja justamente a música que outro Nômade estava esperando encontrar.
Uma lista feita por uma pessoa é memória.
Uma lista construída por todos nós começa a virar arquivo.
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